Aliviado, eufórico e loquaz com os sucessos setoriais do governo, o presidente Lula soltou a língua, que nunca foi muito controlada, e anda a espalhar pelo mundo, nas viagens de todos os dias, que são um dos encantos e ocupações do exercício do cargo, frases, conceitos, comentários e expressões populares de gosto duvidoso e gritante inadequação, agravada pelas circunstâncias e locais em que são lançados ao vento.
A penúltima amostra foi a piada infeliz, incrustada em apreciação distorcida, de rejeitar o pedido dos repórteres de uma breve entrevista com a justificativa de que nós, da imprensa, somos ''um bando de covardes que não têm coragem de defender a criação do tal Conselho Federal de Jornalismo''.
Um instante de reflexão presidencial constataria a impropriedade da brincadeira, que vira o bom senso pelo avesso. Ou a fina ironia passou batida na reação irritada da maioria da nossa categoria. Para fazer as pazes com a lógica, forçando a barra até envergá-la, vamos admitir que o presidente driblou a conversa, reconhecendo que é preciso a bravura misturada com cinismo para que o jornalista que se preza e se dá ao respeito defenda a proposta, de translúcida inspiração peleguista, de criação da arapuca, que promete uma gorjeta aos conselheiros catados na lata de despejo para abrir o caminho que sempre termina na censura à imprensa.
Adiante, que o monstrengo agasalhado pelo governo, que ainda se deu ao desfrute de piorá-lo antes de encaminhá-lo ao Congresso, se não está morto e sepultado, caiu na gaveta dos esquecidos para longa hibernação.
Lula não perdeu o embalo. A recaída na visita ao Gabão - antes da viagem ao Haiti para assistir à partida amistosa da Seleção Brasileira de Futebol, remendada, mas que deu e sobrou para a vitória de 6 a 0 contra o modesto combinado local - é muito mais lamentável. Sem que ninguém pedisse, explicou os motivos da viagem com extravagante argumentação: ''Eu fui ao Gabão para aprender como um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição''.
Os bajuladores de plantão acodem com a desculpa esfarrapada, a única disponível, de que se trata de uma brincadeira. Afinal, Lula tem assegurado o direito de candidatar-se à reeleição em 2006. Mais uma razão para acautelar-se e não pilheriar com um país sem tradição democrática e que ainda passa o desapreço pela rotatividade do poder, incompatível com 37 anos de permanência de um mesmo presidente e que quer mais.
Os 50 anos do suicídio do presidente Getúlio Vargas não estão passando em branco. Poucas datas mereceram igual revisão histórica, na distância que estimula a isenção do reexame não apenas do gesto extremo, que mudou o rumo do país, depois de serenada a paixão, com os sobreviventes com os cabelos brancos e a fartura de documentos à disposição dos que não se satisfaçam com a extensa cobertura da imprensa e os inúmeros e enriquecedores debates, as conferências, palestras e mesas-redondas.
Certamente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria muito a lucrar se dedicasse alguns vagares nos intervalos das suas viagens internacionais, os seus giros domésticos ou no repouso do fim de semana, entre a pelada e o churrasco, a informar-se sobre um dos mais importantes políticos da história republicana, seus hábitos e métodos de trabalho. Comparando, no repasse da lição, com os descontos de meio século de mudanças no Brasil e no mundo.
Não foi o sorriso do Velhinho, a sua simpatia, a ajuda do DIP calando a boca da imprensa durante o Estado Novo, de 37 a 45, que sustentaram a popularidade de Vargas, inclusive no declínio da crise deflagrada com o crime de Tonelero e a morte do major da Aeronáutica Rubem Vaz, nome de rua na Gávea.
Getúlio é autor da sua melhor biografia. Salva pelos cuidados de sua filha predileta, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, e publicada pela diligência da sua neta Celina. De 1930 a 1942, encheu 13 cadernos com as anotações diárias, redigidas na letra inconfundível, da sua rotina de trabalho, enriquecidas com comentários sobre os assuntos mais importantes, desabafos e intimidades surpreendentes. É o mais importante e completo depoimento do solitário e infatigável trabalhador. Certamente que jamais passou pela sua cabeça a hipótese de publicação da conversa a porta fechada com os seus botões. Em vida, ninguém sequer viu os cadernos escondidos no fundo da gaveta. Depois da sua morte, na montanha de papéis recolhidos pela filha, os cadernos foram encontrados anos mais tarde. A neta ilustre, com a dignidade ética da sua formação profissional, decidiu pela publicação, em 1995, pelo CPDOC, da Fundação Getúlio, respeitando o texto integral.
O ditador e o presidente eleito pela Assembléia Constituinte de 1934 mantiveram os hábitos do despacho do expediente de cada dia, em serões solitários ou apenas com um assessor, que varavam a noite e engoliam as madrugadas. Nenhum processo dormia na gaveta. No máximo eram deixados para o dia seguinte, nos raros casos mais complicados. O governo andava, cutucado pelas cobranças do chefe atento.
Além do horário extenso, Vargas cumpria a rotina fundamental dos despachos com os seus ministros e diretores de autarquias e serviços importantes. Em vez dos 35 ministros e secretários do estilo cortiço, apenas oito ministros nos primeiros anos, passando da dezena com a criação de mais dois ou três ministérios, entre os quais o do Trabalho.
Viajar, discursar na cadência do improviso, complementam o pesado fardo administrativo. Mas o governo oral é uma excentricidade que não dá certo. Com ou sem piadas e gracinhas.
Getúlio falava pouco. Seguia o ditado popular que ensina a não engolir insetos.