Toda essa conversa dissimulada, marota e calhorda sobre a proposta do governo encaminhada ao Congresso, de criação do Conselho Federal de Jornalismo, com funções definidas em três verbos - ''orientar, disciplinar e fiscalizar'' -, em marcha batida na cadência da ditadura, despojada dos seus adereços e arrancada a máscara transparente, pretende simplesmente instituir a censura à imprensa.
Há algum tempo, nos trambolhões dos desacertos dos primeiros meses de aprendizado do presidente e da equipe, jejunos da indispensável experiência administrativa, aqui e acolá os sinais de irritação com as críticas mais ásperas de jornais e revistas e as picadas de marimbondo de emissoras de rádio e televisões insinuam nas entrelinhas a necessidade de um severo esquema de vigilância dos abusos e a punição exemplar, para escarmento da categoria, dos atrevidos que não fazem justiça, com as loas que acariciam a alma, ao esforço sincero do presidente e dos que recrutou, com a generosidade do consolo aos derrotados, para compor o maior ministério de todos os tempos.
A indignação, remoída nos desabafos palacianos, soltou-se das algemas do constrangimento com a denúncia dos escândalos farejados em vários cantos e envolvendo os intocáveis da equipe econômica, que seguram a inflação e comemoram os sinais alentadores da retomada do desenvolvimento, escorada em índices, embora modestos, mas de significação indiscutível.
E é aí que a encruzilhada em cima do mata-burro obriga à escolha entre a trilha apertada das convicções democráticas e a tentação da estrada pavimentada pelas facilidades do arbítrio. A perdição acena com engambelos da feitiçaria convincente. Desfila as justas queixas pela leviandade das acusações jamais comprovadas e que expõem as pobrezinhas das vítimas à execração pública; aponta a ligeireza com que repórteres desprezam o sigilo protegido por lei e invadem a privacidade de cidadãos dignos. Contas bancárias, conversas telefônicas, cartas, documentos, recibos, gravações clandestinas alimentam a gana do denuncismo que zomba da lei, na segurança da impunidade.
A argumentação realmente impressiona com a lista de exemplos incontestáveis.
Mas a impunidade que grassa como erva daninha em terreno abandonado é um privilégio exclusivo dos jornalistas ou é a regra na bagunça da legislação caduca, corroída pela traça que abre os buracos da infinidade dos recursos, das apelações, das instâncias superpostas da caminhada sem fim dos processos que se arrastam na morosidade dos prazos da Justiça manietada, cúmplice compulsória das manobras de advogados, e impotente para deter a fuga em massa pela brecha das prescrições?
Paralisada pela indiferença oficial que acode às prioridades do seu interesse, a reforma judiciária não anda um passo na madraçaria parlamentar da semana brasiliense de dois, três dias úteis, com o desconto dos recessos, das férias e das campanhas eleitorais.
Entra pelos olhos que uma faxina para valer no Poder Judiciário não interessa ao governo e sequer roça pela insensibilidade do Congresso. A impunidade complementa a imunidade parlamentar e protege as elites. Pobre mofa na cadeia, não tem dinheiro para as despesas com a sua defesa.
A lei penal enquadra os jornalistas que a infringem nos crimes de calúnia e injúria. Se é raridade de museu a condenação que trancafie o réu no xilindró, a responsabilidade pela preguiça da Justiça não é da imprensa.
Vamos, por uma vez, dar uma folga à hipocrisia e enfrentar a evidência dos fatos. O governo petista, na escalada da contradição, está se despedindo dos embaraços das culpas que castigam a consciência.
Nos meus 55 anos de militância na cobertura política passei pelo vexame de reincidentes períodos de censura. Nas suas diferentes modalidades, ditadas pelo maior ou menor caradurismo dos ditadores. Espasmos passageiros, como ataques de loucura em insanos cíclicos, nas várias crises que derrubaram presidentes e despacharam vices no exercício ilusório do poder, de Café Filho a Carlos Luz, em lances do mesmo transe.
O Estado Novo não corou as bochechas no vexame da ditadura ostensiva: oficializou a censura, criando o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e confiando sua instalação à diligência do primeiro diretor, Lourival Fontes, que temperava o purgante ao gosto do freguês, distribuindo gorjetas aos que espichavam a mão no gesto de pedinte.
Fardada e cínica, a ditadura militar não suportou a liberdade vigiada da imprensa por muito tempo, mergulhando de cabeça na censura que rimava com tortura, na dupla que calava os gritos dos submetidos ao tratamento do DOI-Codi.
Nova temporada no carnaval petista passa de todos os limites. Com escusas pelo arremate pessoal, confesso o meu nojo pela impostura do Conselho Federal de Jornalismo, apelido descarado de novo modelito de censura, com as responsabilidades diluídas entre os que se prestarem ao papel de conselheiros da calhordice.
Não acredito que o governo emplaque mais esta no Congresso. Com ou sem retoques. Afinal, os parlamentares devem à imprensa que cobre as suas atividades e emudece nas gazetas semanais a boa vontade de um noticiário benevolente com a orgia das mordomias.
No que me diz respeito, não voltarei ao assunto. A esta altura da vida, não tomarei conhecimento da censura ao jeito do olhar de Capitu, se ela vingar no lodo dos acertos suspeitos.
Será como se não existisse.