E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Coisas da Política
Aécio inicia sua semeadura

Villas-Bôas Corrêa
O conluio da buraqueira

Informe JB
Bom debate

Cartas
Palace 2

Horóscopo

Supersônicas
Durval, afinal

Gente
Dos halteres aos véus

Charge Online

Marcia Peltier
Parceria azeitada

Leonardo Boff
Boa vontade e política

Informe Econômico
Conflito de geração

Boechat
Troca-troca

Gilberto Amaral
Suspense na ilha

Maria Lucia Dahl
Um tempo para tirar a prova dos noves

Fernandão
Vencer ou vencer

Hildegard Angel
Dinheiro sobrando

Anna Ramalho
Maior bom gosto

 


O conluio da buraqueira


Há muito tempo - anos, décadas - que os governos municipais, estaduais e federal, com a ajuda decisiva do Detran e demais penduricalhos burocráticos do ramo, em conluio informal, tramado na inconsciência do desleixo e na coincidência do objetivo comum, empenham-se, com celebrado sucesso, em transformar as viagens pelas nossas estradas, de trabalho ou de lazer, numa provação que não acudiu à imaginação do capeta.

Falo com conhecimento de causa, cercado de cautelas para não ir além do testemunho. Conquistei o honroso título de cidadão honorário de Nova Friburgo com o hábito, que se ampliou a rotina de família, de passar os fins de semana na casa construída no distrito de Muri, em 1974, lá se vão 30 anos.

Então, e por alguns anos, a expectativa de dois dias de desligamento no clima delicioso da serra começava com o prazer das três horas de viagem de carro. Antes da Ponte Rio-Niterói, a opção favorita aconselhava a travessia da baía nas ronceiras barcas cargueiras, que transportavam o veículo, a bagagem e os passageiros. De Niterói, atravessando a capital fluminense, emendava-se na estrada pavimentada que cortava a Baixada e subia a serra, serpenteando nas curvas que antecipavam a queda de temperatura.

Era pura delícia. Em velocidade moderada pelo freio de mão da prudência, o verde tingia a paisagem nas duas margens e ajudava a soltar os nervos, desfazendo a tensão do duro batente, que acumulava tarefas para compor o salário.

O progresso encurtou o tempo da viagem e acabou com o sossego. O mais alucinado programa de fiscalização e controle da velocidade impôs o desvio das butucas da estrada e da paisagem para a neurótica atenção concentrada na embirutada sucessão de placas que advertem para a variação dos limites máximos de velocidade, conferidos pelos postes de fiscalização eletrônica, que fotografam os veículos que ultrapassem as marcas, na sua dança frenética.

Certamente que complicados cálculos técnicos, inalcançáveis pela nossa crassa ignorância, justificam o samba do moreno de hospício na súbita mudança dos limites, que bailam de 50, 60 a 100km. Surpresas que se sucedem em troca-troca delirante. Qualquer descuido, o cochilo de fração de segundo custa a multa exorbitante, fixada sem o menor critério e o absoluto desprezo pela situação de penúria da classe média.

Em frente a cada escola o limite de 50km. Compreensível. Mas só a preguiça de pensar e a cegueira burocrática não sugerem a solução do bom senso e do respeito ao direito alheio. Em quantas horas por dia, em quantos dias da semana e do ano é indispensável reforçar a segurança dos alunos na chegada e saída da escola? Menos do que os dedos de cada mão. E apenas nos dias úteis, com o desconto de sábados, domingos e feriados; das férias, do carnaval, da Semana Santa. Entra pelos poros que a solução perfeita para a segurança das escolas à beira das rodovias seria o guarda, com a ajuda de sinalização móvel. Alunos auxiliariam na fiscalização do apressados, lucrando com o curso prático.

Os quilômetros privatizados, a partir da bifurcação em Duque e que leva a Nova Friburgo, no rumo de Campos estão recebendo tratamento decente, com o recapeamento, os remendos nos buracos e os acertos no acostamento. Ao preço extorsivo da cobrança de dois pedágios de R$ 2,30, na ida e na volta. Noves fora o da Ponte Rio-Niterói.

Devemos nos dar por satisfeitos, sem calar os resmungos, se compararmos, com o castigo, os requintes da tortura, digna da excelência do finado DOI-Codi, a que são submetidos os infelizes usuários da malha rodoviária em pandarecos em quase todo o país, com raras exceções.

O jogo de empurra da fuga da responsabilidade dos três níveis de governo diverte os omissos, que passam a peteca da herança maldita para o antecessor. Ao padecente, não importa o dono da buraqueira.

Há 19 meses, os buracos federais das BRs estão na conta do presidente Lula. Os estaduais, nas dos governadores; e os municipais, nas dos prefeitos. E o mais é conversa para dissimular a incompetência e a preguiça.

Os jornais, as tevês mostram os flagrantes da situação vexaminosa das estradas. O castigo das enchentes que inundaram vários Estados, destruindo pontes, derrubando barrancos, esburacando o asfalto, justifica situações especiais.

Mas o desmantelo vem de longe. Fico no testemunho confiável de amigos e parentes que costumam viajar pela Rio-Bahia. Para não ir além do que posso afirmar, o trecho entre o Rio e Leopoldina está intransitável. É um buraco só, que ora se alarga pelas suas pistas ou aperta-se numa via - que afunda em mundéus de engolir caminhão ou atrai para valas que desmantelam a suspensão e acabam com os amortecedores.

Os caminhoneiros, com o traquejo de profissionais, sinalizam com luzes para que os que vêm na contramão estacionem, dando passagem na ginástica da improvisação do desvio. Dobrou o tempo das viagens. E, claro, dobraram custo da gasolina e a taxa de risco. A carga se deteriora, há despesas extras com pneus estourados e consertos nas oficinas que não têm mãos a medir. Prejuízo incalculável.

A curiosa cadência do governo do presidente Lula, engasgada no Ministério no modelo de cortiço, levou 19 meses para coçar-se, esquecer os compromissos com o FMI e a psicose com o superávit primário e abrir a torneira, anunciando a liberação de mais de R$ 1,1 bilhão do Orçamento engessado para acudir às emergências de absoluta prioridade. Enfim, o sumido Ministério dos Transportes, aquinhoado com R$ 179,8 milhões, quando botar a mão no dinheiro, poderá sair da toca e começar a tapar os buracos. De saída, restabelecendo as condições de tráfego em 11 mil quilômetros de rodovias que terão de ser praticamente refeitas.

No estado a que chegaram, os reparos custarão o dobro. Assim se desperdiça o dinheiro público.


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[30/JUL/2004]


   Home > Colunas > Villas-Bôas Corrêa

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Carro & Moto
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas