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A gente vai sentir falta


No venerando Sucatão às vésperas da aposentadoria, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia, no próximo domingo, mais um giro internacional de cinco dias, cumprindo roteiro de modestas expectativas: o item mais importante da agenda é o anúncio da redução de tarifas de importação para produtos de países africanos com os quais nos comunicamos no mesmo idioma.

Para encher a pasta murcha, o presidente divulgará acordos comerciais entre o Mercosul e os oito países em desenvolvimento da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Cuidando de não inflar demais o balão, o Ministério das Relações Exteriores avisa que o anúncio presidencial é simbólico, pois a exportação dos oito países não é significativa para o Brasil. Mas como Lula adora viajar e falar, terá muitas e variadas platéias à sua espera em São Thomé e Príncipe, no Gabão e em Cabo Verde.

Vamos sentir a sua falta. Principalmente os jornais, as revistas e noticiários de TV e de rádio, que reservam espaço cativo para o registro diário dos improvisos presidenciais, na abundância caudalosa de doses duplas e triplas.

Na outra face da moeda, a troca de auditórios impõe o ajuste dos temas aos interesses de cada assistência. O que é ótimo. Certamente que em países que falam a mesma língua, o presidente não resistirá à tentação de abandonar os textos preparados pela competência dos especialistas do Itamaraty, para a facilidade do seu improviso, escorado nas metáforas de sabor popular, inspiradas no futebol, no esporte em geral e nas suas preocupações com a pobreza.

Daí pode resultar benefício em mão dupla. Nos saldo da viagem, a esperança de apoio à pretensão do Brasil a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, assunto obrigatório para a conversa com o ministro das Relações Exteriores do Gabão, Jean Ping, que assumirá no próximo mês de agosto a presidência da Assembléia Geral da ONU.

Nos vagares do programa, o presidente disporá de folga e de inspiração para a autocrítica conveniente e sempre oportuna sobre os sucessos e embaraços dos 19 meses do seu governo e a renovação urgente dos temas repetitivos dos seus pronunciamentos. Um pouco mais de cuidado nas imagens, que muitas vezes resvalam para a vulgaridade, e na linguagem solta do coloquial doméstico. Não custa, por exemplo, substituir pelo pronome nós o substantivo gente, natural, facilitando a comunicação, nas grandes assembléias da sua ascensão vertiginosa como líder sindical. Pode parecer ranzinzice - e vá lá que seja - mas não é descabida.

Com tantas atrações, quase que passa em branco o principal motivo da viagem: Lula participará da V Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP, que o Brasil preside desde 2002 e onde agora será sucedido por São Thomé e Príncipe.

Para as longas horas de retorno, embalando o cansaço, o presidente poderia dedicar alguns minutos à análise do risco de engessamento do governo pela burocratização, que de cacoete de nascença transformou-se em vício que enrola a administração na teia de órgãos inúteis, muitos superpostos e sem nada para fazer.

As especulações sobre a inevitável e sempre adiada reforma do Ministério, atolado na obesidade de 35 ministros e secretários, jamais focalizam a necessidade prioritária do enxugamento do monstrengo, transformado em albergue para acolher os petistas abandonados ao relento pela ingratidão das urnas. Um ano e meio de asilo é mais do que suficiente para que os dispensáveis desocupem o beco e tratem de cuidar da vida.

Além do inútil e desativado Conselho de Desenvolvimento Político e Social, abandonado na sua abençoada ociosidade, com a compreensível novidade da porta fechada, proibida a presença fofoqueira dos repórteres, instalou-se com discurseira - o presidente, em raro esforço de laconismo, deitou improviso de 20 minutos - a Câmara de Política de Desenvolvimento Econômico, a 11ª câmara presidida pelo ministro José Dirceu, na rota de recaída na estafa. Mas, como nasceu com o gigantismo da mania de grandeza do governo petista, composta, além dos 14 ministros, pela Comissão Executiva de 30 membros, já se pode antever que terá o viço de um canteiro de alface na caatinga.

No folclore político, credita-se à manha mineira o conselho maroto de repassar a uma comissão sempre que se pretende disfarçar o desinteresse pela solução de um problema. E com o plenário de 44 integrantes é que não dará um passo à frente.

Difícil entender o governo na confusão que ele mesmo cria e nela se perde. Ainda agora, Lula comemora o alívio de alguns acertos reconhecidos na política econômica, com a retomada cautelosa do crescimento, o controle da inflação e o equilíbrio em conta corrente. E mete os pés pelas munhecas em trapalhadas como no precipitado anúncio da decisão de aumentar de 20% para 20,6% a alíquota da contribuição previdenciária das empresas, para recuar sob pressão, com as cicatrizes do desgaste, debaixo do fogo cruzado da oposição e de pedaços do PT.

As viagens costumam fazer bem ao humor do presidente. Distante, os problemas encolhem à sua insignificância. O casal presidencial, em alto-astral, ao regressar mudará de pouso, trocando o Palácio Alvorada, que entrará em obras até o fim do ano, pela Granja do Torto, mais distante das futricas dos palácios dos três poderes.

No vôo de volta Lula entrará no clima de despedida do Sucatão, embalado no sonho do novo Airbus de U$ 56 milhões que deverá ser entregue, quitado, no fim do ano.

Com tais requintes, na fofura do conforto, o presidente Lula lembra os dois versos que o talento de Mário Lago encaixou na música do samba eterno de Ataulfo Alves, Ai Que Saudades da Amélia:

Você só pensa em luxo e riqueza

Tudo que você vê, você quer...


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[23/JUL/2004]


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