Leva o jeito de mania, de cacoete agravado pela teimosia e sua dose de arrogância ou é apenas o embaraço na análise e na avaliação das conseqüências, mas impressiona a reincidência com que o governo joga mal no gargalo das decisões fundamentais e reverte em derrotas as partidas nas quais está levando vantagem.
Balda ou incompetência, os exemplos se repetem, sem que a lição dos erros seja aproveitada. Para ficar em dois episódios recentes: se sempre foi difícil empurrar goela abaixo das vítimas o reajuste de R$ 0,66 (sessenta e seis centavos) por dia do salário mínimo de R$ 260, não há como justificar que o anúncio do que estava decidido desde o início não tivesse sido feito logo, em breve pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a choradeira das explicações e o rateio da responsabilidade com a herança maldita, ao invés da novela que se espichou por três semanas de angústia nas intermináveis e inúteis rodadas de reuniões, prolongando a agonia e jogando na rua as indignadas reações dos iludidos.
Nos remendos a que ficou reduzida a pomposa promessa de reforma da Previdência, o governo esqueceu de combinar com o seu partido o logro nos aposentados e pensionistas. A experiência e a esperteza aconselhavam o debate preliminar com a bancada petista, abrindo a oportunidade dos desabafos dos descontentes para a decisão pelo voto, com o prévio compromisso da obediência dos vencidos à democrática decisão, aprovada por ampla maioria. O sestro autoritário de impor a vontade soberana do presidente, com a exclusiva assessoria do grupo palaciano, resultou no racha do PT, com a expulsão da senadora Heloísa Helena e de quatro deputados, e tende a ampliar-se com novas rebeldias.
Dei algumas voltas antes de chegar ao principal. E vou direto ao ponto nevrálgico: alguém de bom senso e o mínimo de isenção pode cultivar dúvida de que a inacreditável incompetência da obtusa decisão da responsabilidade turrona de Lula, de expulsar o correspondente no Brasil do New York Times, Larry Rohter, está custando um desgaste doméstico e internacional ao próprio presidente, à imagem do país, infinitamente maior do que uma sensata e indispensável reação no limite do razoável ?
Não vou chover no molhado e repisar obviedades, como a reprovação à leviandade do repórter americano ao embarcar em fofocas e mexericos de fontes vulneráveis pelas suas notórias posições políticas.
Mas o jogo estava ganho por goleada no primeiro tempo, com a solidariedade consensual do país, inclusive a expressa e veemente condenação das lideranças oposicionistas. Com a cabeça fria, o governo orquestraria os protestos pela via diplomática e avaliaria a conveniência e o amparo legal de uma ação na Justiça.
A esta altura, o incidente teria encolhido à sua exata dimensão, rebaixada para notas em uma coluna das páginas internas dos jornais e revistas e de segundos nos noticiários dos rádios e TVs. No Congresso, com coisas mais urgentes para cuidar na minguada semana brasiliense de dois a três dias úteis, nada mais do que o requentado de discursos da turma ociosa. No resto do mundo, o manto opaco e conveniente do esquecimento.
O que valorizou o assunto, ressuscitado com fôlego de sete bichanos, foi a invocada, despropositada, incompetente reação do presidente, na estréia da expulsão do país de jornalista nos nossos intervalos democráticos, baseado no Estatuto dos Estrangeiros, de 80, esquecida lei da ditadura militar e aplicada uma única vez pelo presidente Garrastazu Médici, seu orgulhoso autor, há mais de 30 anos.
Lula arrumou uma sarna que o incomodará por muitos anos. Coçando até arrancar sangue todas as vezes que for flagrado com um copo na mão. Terá que se cuidar com o sacrifício da sua espontaneidade. Em público, hábitos de abstêmio ou o risco das gozações, ricocheteando na tribuna parlamentar, nos espaços do humor. E não adianta chiar, pois é sua a culpa.
Aliás, há muito tempo Lula provocava a maledicência nos exageros do estilo popular do modelo da liderança sindical. É infamante a insinuação de viciado em bebidas alcoólicas. Mas nos momentos de descontração, em qualquer ambiente, brincava com a sua preferência pelo cálice de cachaça, as batidas e as bebidas fortes.
Em declaração para um documentário, que ainda não está pronto, puxando a memória dos tempos de torneiro mecânico, relembra a extravagante rotina da sua turma de amigos para a fruição plena do horário de almoço. Disparavam da fábrica, de macacão grosso e botas, para o botequim onde viraram ''dois a três cálices de cachaça'', emendavam no almoço farto da pensão e corriam para a pelada sagrada de todos os dias até o apito de advertência para o segundo turno.
Os próximos dias, acalmando os nervos, aconselham a reflexão da autocrítica. Certamente aprendeu que, em assunto de imprensa, não tem melhor conselheiro que o sensato, arguto e confiável Ricardo Kotscho.
Doída como ferroada de marimbondo, o mais enxuto resumo da opereta é de autoria do jurista Miguel Reale Jr.: ''Se a notícia foi maldosa, a reação foi burra, e, muitas vezes, a burrice é pior do que a maldade''.