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No mar alto


A dose dupla de derrotas desmoralizantes do governo na bagunça da sua base parlamentar insatisfeita e desarticulada - com a criação da comissão mista de senadores e deputados para analisar a medida provisória que reajusta o salário mínimo com o generoso aumento de R$ 0,66 (sessenta e seis centavos) por dia e a vexaminosa vitória dos exploradores dos bingos na indecorosa decisão do Senado que permitiu a reabertura dos antros de jogatina, lavagem de dinheiro do tráfico e outras muambas - pode ser ou não remendada com as clássicas manobras do casuísmo.

Mas não se enquadra - a dupla derrota - na classificação de acidentes do percurso, com o cochilo das lideranças governistas. A sua indisfarçável e assustadora gravidade está na denúncia da crise em que se debate o governo, a merecer a qualificação de crônica, cumprido apenas um terço do mandato de quatro anos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E que dá a impressão do náufrago em mar alto, sem a bóia para se agarrar enquanto reza e espera pelo socorro, com a ajuda divina. Agita os braços, movimenta as pernas, engole água salgada e vai perdendo o fôlego na agitação descontrolada.

Quando o governo vira o fio, nada dá certo. É sintomático que Lula calce as chuteiras da humildade com que chutava as canelas dos adversários e bata na caixa do peito as surdas pancadas do reconhecimento de erros, no pedido de desculpas que ficou engasgado nas reservas de arrogância.

Até o cenário mudou. Fugindo do risco das vaias nas grandes concentrações populares, escapulindo dos encontros com as manifestações de protesto e das romarias de reivindicações de decepcionados e de grevistas, no movimento que se alastra como tiririca em terra abandonada, o presidente acautelou-se comparecendo à inauguração da nova unidade da cooperativa Comigo, em Rio Verde (GO), para o seu ato de contrição. Deu a mão à palmatória na confissão do equívoco no empacado programa do Primeiro Emprego, ao proibir os patrões que a ele aderissem de demitir empregados. Proibido de demitir, ninguém correu o risco de contratar para o primeiro emprego.

Na edição, na sua safra recordista, da medida provisória modificando o Cofins, errou ao restringir as compensações tributárias aos produtores agrícolas, o que acarretaria o aumento de custo de 7,5% das cestas básicas, mais do que o índice de reajuste do salário mínimo.

Vá lá que errar é humano, especialmente no caso do presidente sem nenhuma experiência administrativa. O enguiço que não tem jeito é a teimosia presidencial de não ir ao fundo da questão até o reconhecimento da origem dos desacertos. Às fontes primárias da montagem da máquina, que raia ao absurdo do maior Ministério de todos os tempos, com 35 ministros e secretários escolhidos segundo critérios discutíveis e, em muitos casos, francamente calamitosos. Com tal Ministério, em que se aconchegam petistas castigados por derrotas e com vagas inventadas no improviso para carimbar os acordos com os novos aliados, cooptados na barganha escancarada, não há quem governe. Com as exceções facilmente identificáveis, o elenco de nulidades perdidas na barafunda da superposição e duplicidade de tarefas é como freio de mão puxado em calhambeque na última lona.

O PT endoida nos titubeios do governo que dele exige, a cada passo, que renegue convicções e compromissos de 20 anos de militância, reafirmados em quatro campanhas. A surda indignação corrói a legenda pelas beiradas, com sinais de estouro diante da imposição de recuos suicidas em ano eleitoral, como a aprovação da MP do salário mínimo.

Com problemas domésticos de sobra, o governo não tinha nada que meter o bedelho na miudeza da disputa pelas presidências das duas Casas do Congresso. Abúlico e omisso diante da orgia das mordomias, das vantagens e dos privilégios que, com a conivência e a participação fundamental das bancadas petistas, compõe o escândalo dos ganhos de senadores e deputados, na espiral que vai além dos R$ 85 mil mensais, o presidente só despertou na avaliação das vantagens e inconveniências da reeleição dos atuais presidentes, da sua estima e confiança.

O tempo vai passando diante do governo atônito, indeciso e em vertiginosa disparada contraditória. Os compromissos são adiados para o amanhã do dia de São Nunca. Esforços esporádicos de reação desmancham-se como picolé em mão de criança.

A lista acrescenta a cada dia novas tolices. Agora, com a estréia das desculpas.

Velho samba de grande sucesso ensina que ''perdão foi feito para a gente pedir''.


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[07/MAI/2004]


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