Cutuco o fundo da memória e não encontro lembrança de governo que tenha envelhecido mais rapidamente do que o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Chega a um terço do mandato de quatro anos com a estridência das sirenes de alarme soando no tom agudo do desespero, cercado de crises por todos os lados, com greves em série e a agenda anunciando novas paralisações dos que se sentem logrados pelas promessas não cumpridas; desafiado na sua autoridade em frangalhos pelos antigos aliados que duvidam da sua palavra; com o MST batendo o recorde de invasões de terras produtivas ou improdutivas e da acintosa ocupação de prédios públicos; e com os índices de popularidade em queda livre.
Na última pesquisa realizada pelo Ibope, para orientação interna - como informa Boechat -, a aprovação do governo baixou de 54% para 51%, em alarmante empate técnico com a desaprovação em disparada, de 49%. Nessa toada, na próxima consulta aos decepcionados o governo entrará na faixa do vermelho, solidário com a sina dos clubes cariocas nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro.
Três das mais populares promessas das quatro campanhas de Lula estão expostas em velórios de pobre, esperando a hora do enterro em cova rasa. Nenhuma delas pode ser salva pelo milagre da ressurreição. A começar pela reforma agrária, que amarga como limão azedo na goela presidencial. Essa o governo perdeu na mistura suicida da incompetência com a soberba. Prometeu assentar mais de 400 mil famílias de sem-terra, no simplismo de reduzir o problema à distribuição de lotes e cestas básicas, sem a assistência técnica e o mínimo cuidado de separar lavradores de mãos calejadas dos espertalhões que pegam carona nas marchas, de olho grande na revenda dos lotes.
Trata-se de exemplo emblemático da leviandade e da inexperiência administrativa dos quadros petistas, criados do outro lado da cerca da oposição. Lula jactava-se da sua habilidade de articulador, testado nos anos de liderança sindical e o único em condições de negociar com o MST um projeto de reforma agrária sem violência ou invasões de propriedades produtivas. Recebeu as lideranças, com o maneiroso Stédile à frente, no seu gabinete do Palácio do Planalto. Deixou-se filmar e fotografar com o boné vermelho e entregou o Ministério Agrário ao companheiro Miguel Rosseto. E não cuidou mais do assunto, na agitação em que desperdiça o tempo em reuniões inúteis ou na exibição dos seus dotes de orador fluente nos improvisos que lhe têm custado tantas gafes e escorregões no piso ensaboado do ridículo.
Nada deu certo. A onda de invasões devasta a autoridade do governo e ameaça descambar para o pior. Fechou a cancela do beco: se ceder, passará recibo na rendição; empacando na teimosia, tocará fogo no paiol.
No segundo dos desacertos, o do aumento do salário mínimo de R$ 0,66 (sessenta e seis centavos) por dia, entre pedidos de desculpas e as sovadas explicações da herança maldita, enfiou-se no túnel escuro, com entrada e sem retorno. Os jornais, revistas e os oposicionistas que destoam do bloco dos mudos divertem-se catando as contradições entre o que disseram ontem e agora desdizem o presidente, seus ministros, líderes, parlamentares e o bloco dos cupinchas que já abocanharam o seu naco no rateio do bolo do governo. As coisas estão malparadas. Nem as lideranças oficiais curvam o cangote na incerteza do ano eleitoral. Na reunião de amanhã, quinta-feira, do Conselho Político, afinal convocado para a estréia, líderes governistas articulam-se para botar a boca no trompete, solar o constrangimento com o reajuste mofino e defender uma meia-sola no mínimo para a migalhice de R$ 300 ou R$ 320. É outra parada que o governo perdeu na véspera, com cota extra da fila de greves declaradas ou das que se anunciam, com fôlego para um colapso de serviços essenciais.
O terceiro tombo, com as clássicas conseqüências das contusões generalizadas, é o da criação de 10 milhões de empregos, com o penduricalho de milhões de primeiro emprego para o milhão e meio de jovens que todos os anos batem com a nariz na porta fechada do mercado de trabalho. O desemprego bate recorde histórico nas principais capital e o primeiro emprego embaraçou-se no novelo da infernal burocracia petista, desde o pico dos 35 ministros até o desmantelo das repartições ocupadas pelas tropas vitoriosas nas urnas da decepção. Encabulado, o governo não fala mais em números na recauchutagem das promessas de criação de empregos e do primeiro emprego.
Na juventude de um terço do mandato, na exuberância da melhor fase da vida, o governo parece um ancião precoce, castigado pelo destino, que começa a ser abandonado pelos amigos, criticado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Maurício Corrêa, e que, com medo de vaia, evita sair de casa até no Dia do Trabalho, para festejar o aumento de 66 centavos por dia no salário mínimo.