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Na contramão, de ladeira abaixo


Depois de uma dezena de reuniões, que engoliram três dias e entraram pela madrugada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu chegar a decisão consensual sobre o segundo aumento do salário mínimo, no dia em que, em clima de velório, alcança a marca de um terço do mandato de quatro anos.

Foram mais de 30 horas de conversa, com novas rodadas na manhã de ontem, até o anúncio oficial: R$ 260,00, a partir de amanhã, 1º de maio, Dia do Trabalho. Não é nada, não é nada, é pouca coisa mesmo: 8,3% de aumento sobre os vigentes, moribundos e esquálidos R$ 240, e o salto acrobático, digno da Daiane, de 1,73% sobre a inflação.

Francamente, tanto esforço, tantas angústias, a mobilização de ministros insones no rodízio das consultas, para chegar a tão frustrante e mofino resultado! O parto do camundongo que aprofundou as olheiras fundas dos ministros da Fazenda, do Planejamento, do Trabalho, da Previdência, da Articulação Política, que rodopiaram em volta do núcleo de duvidosa dureza do Palácio Planalto, fazendo e refazendo cálculos, buscando fórmulas mágicas para o reajuste do mínimo que juntasse as pontas dos compromissos históricos do presidente e do PT com a promessa jurada do ministro Antonio Palocci, sacramentada por Lula, de manter o equilíbrio fiscal para segurar a inflação pela cauda.

Baixando das alturas da discussão que contrapõe argumentos econômicos às promessas eleitorais, à objetividade dos números e do respeito à palavra empenhada, o balão que tantos sopraram até doer as bochechas murchou, encolheu, virou o cisco que se varre na limpeza doméstica.

Comecemos nas alturas da reverência à ética, que vinca a testa esticada de Lula e amargura a sensibilidade do líder sindicalista. Convém repisar o sabido tão desrespeitado nas intermináveis e inócuas maratonas do palavrório palaciano: Lula não apenas comprometeu-se a recuperar o poder de compra do salário mínimo mas, com a leviandade da boa-fé e a arrogância de quem acha que tudo pode, quantificou a palavra empenhada na solene afirmação de que dobraria o mínimo.

A lógica aprisiona a credibilidade da promessa na imagem de uma escada com quatro degraus, para o coerente esforço de galgar um a cada ano. O governo trocou de mal com seu passado, dá o dito pelo não dito com a maior cara-de-pau e acredita que pode enganar os trouxas, que somos todos nós.

O quebra-cabeça na montagem do mínimo rodopiou em torno de migalhas. A proposta inicial do dono da área, ministro Palocci, mandava às favas os compromissos de 20 anos de oposição, para fincar pé na reposição do índice de inflação, com o agrado com gosto de fel e o azedo do logro do mínimo de R$ 256 - o doce de coco para o empresariado e a felicidade do FMI. Depois de longas e sofisticadas avaliações, reconheceu que com mais um real dava para bater o martelo.

As noites são longas e companheiras da fadiga. Adiou várias vezes o recomeço da lengalenga, com o presidente abastecido de tabelas e cálculos para sua decisão. Espremendo-se o caldo da fruta de casca seca, pingaram as dúvidas: se optasse pelo critério político, oscilariam entre R$ 260 ou alguns reais a menos de R$ 270.

Na conta da fome do salário mínimo sobrevivem mais de 21 milhões de trabalhadores. Pelo seu valor são calculados os salários de muitos milhões. Não é, portanto, um assunto desprezível.

Em dinheiro vivo, o que representa a diferença entre a somiticaria dos tecnocratas e a generosidade do eleito com 52 milhões de votos? O rato gerado pela montanha acrescenta R$ 20 aos R$ 240 do mínimo com fôlego de bichano que durou 13 meses, um a mais de marota sobrevida.

Asas à imaginação no vôo da esperança. Do patamar dos R$ 240 que deve ser enterrado amanhã, com um mês de atraso, para os R$ 260 são mais R$ 20 que estufam os bolsos e engordam as contas bancárias de 20 milhões à beira da indigência. Quer dizer, no embalo do sonho, menos de um real por dia. Exatamente 66 centavos. Dá para comprar algumas balas avulsas ou o pacotinho fino de amendoim oferecidos nos ônibus, trens, nas barraquinhas. Refresco, só de groselha, aguado. Não paga uma passagem de ônibus.

Claro, que um aumento para valer quebraria a Previdência Social, levaria municípios à falência. Argumentos que só se invocam quando se trata dos interesses dos pobres, no limite da miséria. Agora mesmo, com a desfaçatez da crise de decoro coletivo que grassa no Congresso, o Senado aprovou a contratação de 2.793 servidores pelo governo, para cargos comissionados, a serem distribuídos pelos cupinchas que ainda não levaram o seu naco no rateio do bingo petista e de aliados. E corre-se para aprovar a emenda constitucional que reduz o corte de 8.500 vereadores, aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para 5.062, da proposta da Câmara. ou para apenas 3 mil, da descarada manobra aprovada pelo Senado.

O presidente Lula não cumprirá a promessa de dobrar o salário mínimo nos reajustes dos últimos dois anos do seu mandato. Perdeu o embalo e encurtou o prazo. Com o reajuste de 8,3% ficou mais distante do juramento de campanha.

A coerência não entra em férias nem em conchavos para a emergência das contradições. O governo brigou com seu passado; Lula desviou-se do rumo das duas décadas de lutas. Desgovernada, a geringonça disparou de ladeira abaixo na contramão do imediatismo. Tudo promete, nada se cumpre. A máquina não anda, sem comando e sem destino.

E levou na bagagem o PT, com as defecções e resistências sabidas. No Congresso, desfibrado, a bancada petista confunde-se com o baixo clero. Segue o governo na vereda da aventura do oportunismo e da demagogia.


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[30/ABR/2004]


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