O presidente Lula dispensa ajuda no empilhar justificativas para a sensação nacional de fracasso do seu governo, que parece envelhecido, com todos os sinais de desânimo, depois de um ano e três meses e meio dos quatro anos de mandato.
No momento, o espetáculo da falência da sua autoridade, de cambulhada com a bagunça administrativa, expõe-se em dois palcos, em montagens chinfrins. Da tragédia que descamba para a galhofa, no desmoralizante desafio do MST, ostensivamente à margem da lei, na ocupação de fazendas, de terras produtivas ou improdutivas e de prédios públicos, e na rendição do Rio, e em escala menor de São Paulo, ao crime organizado em quadrilhas que disputam os pontos do milionário mercado da droga, da lavagem do dinheiro do tráfico, com tropas lideradas por bandidos famosos e a sofisticação do armamento contrabandeado pelos muitos atalhos do país humilhado.
O governo não precisa de socorro nem de oposição. O PT incumbe-se de alimentar os dois lados do contraditório, na maré crescente de críticas e cobranças, como a do governador Jorge Viana, do Acre, no desabafo crítico e irretocável do puxão de advertência: ''Nosso governo tem sido muito tímido e deveria exigir que o MST cumpra a parte dele''. O fandango da hipocrisia deixa o governo nu nas suas negaças. A cada farsa de acordos, o Movimento dos Sem Terra, seguro da impunidade, renova afrontas e desdenha do palavrório da autoridade contestada, na repetição do mote ridicularizado de que a reforma agrária não será feita na marra, mas dentro da lei.
Mas, que lei, faces descoradas? Com 74 propriedades invadidas na jornada de abril, com depredações, desvios e outras espertezas e nem um pio oficial para restabelecer a ordem, o governo faria melhor calando o bico.
Creio - e posso estar enganado - que o momento é oportuno para aprofundar a análise e escabichar mais fundo no buraco preocupante do desmonte do governo. A começar pela análise critica da deformação das campanhas eleitorais, aviltadas pelo despudor das despesas fantásticas e pelo domínio absoluto dos marqueteiros.
Da volta de Getúlio Vargas, em 50, até a ditadura militar de 64, que durou quase 21 anos e cujo 40º aniversário tão largamente badalamos, cobri e acompanhei dezenas de campanhas presidenciais e estaduais. A era da televisão, iniciada em 50, engatinhava como criança amparada pela babá. Cobertura ao vivo de comícios é novidade, se não me engano, da campanha das Diretas-Já. Nos ensaios preliminares, o pobre noticiário atrasado de filmes de comícios. E não faziam a menor falta. Os debates entre candidatos, transmitidos ao vivo dos estúdios, foram a pré-estréia do que viria no desatino da demagogia.
Com tal formato, a campanha nacional era uma colagem de campanhas estaduais, coincidentes ou não, dominadas pelas paixões locais. Algumas memoráveis, pelo acirramento das rivalidades regionais. E se candidatos jamais primaram pelo recato e parcimônia nas promessas, as imposições do decoro estabeleciam os limites. Os roteiros que cobriam todos os Estados rendiam noticiário escasso na grande imprensa nacional.
A fervura em fogo brando mantinha o interesse crescente. Mas só incendiava a opinião pública nos grandes comícios da reta final.
Duas décadas de ditadura fardada que se esmerou em desmoralizar os políticos não ensinaram aos sobreviventes e às novas gerações da atual fase de 18 anos de restauração democrática as lições da prudência e da compostura. A lamentável crise de decoro coletivo dos desregramentos do Congresso, com a farra das mordomias, das vantagens e das trampas dos salários indiretos, vazou para as campanhas. Como era inevitável.
Criou-se o horário gratuito de propaganda eleitoral, que incha, engorda a cada eleição. E chega-se ao topo com a proposta do financiamento público das campanhas. Armado o circo, a companhia renova os números a cada temporada. Os debates minguaram para o simulacro de uma ou duas chochas sessões, com o tempo rateado em blocos, o fingimento das perguntas e respostas, até de jornalistas convidados. Em geral, uma chatice de curar insônia.
O exagero despudorado fez o resto. Os políticos que orientavam os candidatos cederam a vez aos marqueteiros, os novos donos do pedaço. E o objetivo da campanha enquadrou-se na cartilha do mercado, para a venda do produto a qualquer preço. Às favas a ética. Os candidatos embonecam-se na maquiagem que lambuza a cara, determina a cor e feitio dos ternos, treina atores para recitar textos lidos no telepronto. Textos que carregam a mão nas promessas, nos compromissos da alucinação.
O eleito se empossa com seu saco lotado de juramentos de obras, empregos, salários, saúde, educação, segurança de fazer inveja ao céu. O choque da realidade poda ilusões e o coro das cobranças pauta-se pela frustração. E dá no que está aí.