Uma das curiosas baldas do governo do presidente Lula, a que não falta o molho da esperteza, é a de, sempre que se enrola em cobranças, apertado pelas críticas da oposição ou encostado na parede por denúncias incômodas - como a novela que tem o ex-assessor do Planalto Waldomiro Diniz como artista principal -, gaguejar desculpas e mudar o tom do discurso, despejando promessas e anunciando novos programas, como se o governo não tivesse passado e começasse amanhã.
O truque até que vem dando certo. Como neste exato momento, embora as coisas possam virar de pernas para o ar do dia para a noite. No escândalo do Miro, entre idas e voltas, o governo esvazia a oposição, retirando assinaturas dos requerimentos de convocação das Comissões Parlamentares de Inquérito para investigar a atividade dos bingos e cavoucar o passado nebuloso do seu ex-assessor para a delicada função, da mais estrita confiança, das articulações parlamentares.
A grita da bancada do PT e de seus aliados argumenta que não há o que investigar, uma vez que o governo adotou as medidas radicais e imediatas que lhe competiam: a demissão sumária do Miro, acolchoada com o ''a pedido'', e a Medida Provisória que lacrou os bingos, até que o Congresso aprove a solução definitiva.
Enquanto a Polícia Federal e o Ministério Público tocam o bonde das investigações, embaraçadas pela tática dos advogados do Waldomiro de manter a boca fechada para que não escape a mosca de alguma inconveniência, o governo entoa a cantiga do recomeço, como se partisse da estaca zero. O que ficou para trás são águas que não movem moinho.
Hábil e blandicioso, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, montou um ladino esquema que vira pelo avesso o catastrófico índice negativo de 0,2% do Produto Interno Bruto no ano inaugural do mandato de Lula, para sustentar que no último trimestre emplacamos 1,5% de recuperação do PIB, a anunciar os novos tempos da retomada do desenvolvimento, como o número de arromba do show do crescimento.
Com algumas pás de manha, o ministro sepulta a herança maldita de 2003 e engata a marcha do otimismo para a arrancada do governo, que começa amanhã.
Nem sempre é possível o equilíbrio no fio de arame esticado no picadeiro. Como no nó cego dos índices acachapantes de desemprego. São 2 milhões de desempregados na Região Metropolitana de São Paulo. E o índice de 12,5% do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas seis mais importantes regiões metropolitanas do país brada o sinistro cálculo de 10 milhões de desempregados.
A nota irônica de desespero troca o sinal de uma das mais repetidas e enfáticas promessas do presidente: a criação de 10 milhões de postos de trabalho nos quatro anos de mandato. Ao invés de mais 10 milhões em quatro anos, menos 10 milhões em um ano e dois meses. O que significa que, se não forem podados os galhos do exagero, Lula dispõe de dois anos e 10 meses para realizar o milagre de gerar 20 milhões de empregos.
Convenhamos que passa a hora da humilde revisão dos exageros na excomunhão da herança maldita da segunda edição de 2003.
Não há de ser nada. A borracha apaga os borrões do passado e faz a faxina do palco para o recomeço no segundo ato. Sem se dar ao incômodo de explicar por que demorou tanto, o governo anuncia a liberação de R$ 3 bilhões para a recuperação das estradas federais, estaduais e municipais em estado deplorável de abandono, esburacadas pelo desleixo e com os estragos que ainda não podem ser avaliados da tragédia das enchentes que castigam o Norte, o Nordeste e, em menores proporções, outras regiões do país. São milhares de desabrigados.
A demissão, pelo telefone, do ministro da Educação, Cristovam Buarque, facilitou a tarefa do novo titular, ministro Tarso Genro, de voltar as costas para ontem, começar a reforma universitária e estabelecer novas metas para a revisão ampla da política educacional, com o estardalhaço que espante o pessimismo e sacuda as esperanças em estado de choque.
Não há como negar criatividade e malícia no estilo petista de saltar obstáculos, pular as barreiras do fracasso e, com a cara mais limpa, começar de novo, com o mesmo embalo e o mesmo discurso da posse. Daqui para o fim deste ano eleitoral assistiremos ao lançamento de projetos fantásticos, que se equiparem ao Bolsa Família, ''maior programa social em todo o planeta Terra''.
Água benta e pretensão, em doses modestas, ajudam a manter a fé e a acreditar na fantasia.