Governo, oposição, afinal todo mundo só acredita em pesquisa a favor. Bem entendido, de público. Porque, lá no fundo da alma, o índice de desaprovação popular soa como xingamento, dói como beliscão em carne mole.
Mas o governo fez o que devia, não atribuindo maior significação aos dados da última pesquisa CNT/Sensus e justificando os tombos na avaliação do presidente Lula e do Executivo com o desgaste natural do primeiro ano de mandato e o contrapeso da herança maldita, uma boa desculpa que cutuca o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
A confissão das insônias seria um erro político, ao abrir a guarda para os murros da oposição, que já se serviu do pirão na mesa própria da tribuna parlamentar. Maior será o estrago se o presidente e o lote ministerial cuja opinião pesa nas reuniões secretas do núcleo duro do Palácio do Planalto não aproveitarem os recados do povo para deles extrair as lições do bom senso.
Afinal, se não foi um trambolhão de deixar galo na testa e arranhões pelo corpo, a série crescente de percentuais de desaprovação sinaliza tendência de efeitos corrosivos e letais, se não revertida a tempo. Da posse, em janeiro do ano passado, a fevereiro corrente, em um ano, 11 meses e 13 dias, a aprovação do governo escorregou 16,7 degraus nos índices de aprovação positiva e regular. E, no mesmo desequilíbrio, a queda da avaliação do desempenho presidencial foi mais desastrada: 18,6 pontos percentuais no mesmo período.
Um oportuno sinal de que as coisas não vão bem. E se nem tudo pode ser consertado de uma hora para outra, um objetivo e realístico exame de consciência na conversa com o travesseiro fofo do conforto do Alvorada ou na solidão da madrugada do fim de semana na Granja do Torto ajudaria o presidente a tapar alguns rombos mais evidentes.
Na recente e frustrante reforma ministerial, que não foi além da modéstia da meia-sola - noves fora o saldo da mais consistente arrumação da área social dispersa, confiada à competência do ministro Patrus Ananias, e de mais alguns acertos -, o recuo na intenção inicial de enxugar o monstrengo de 35 ministros e secretários, o maior de todos os tempos, contrariou as normas testadas da administração pública e manteve o problema agravado pela teimosia.
O resultado é que o Ministério não funciona com o mínimo de racionalidade. Não apenas a natural ascendência do grupo palaciano, da estrita confiança de anos de convivência com o presidente, divide o governo em grupos que se ajeitam nos vários escalões do poder. Além do ministro José Dirceu, cada vez mais à vontade como articulador de toda a engrenagem da administração, e sua inevitável intromissão na faixa política, para fechar os acertos do ministro Aldo Rebello, da recém-criada Secretaria de Articulação Política e Assuntos Institucionais, e dos líderes do governo com o Congresso; de Antonio Palocci, da Fazenda; de Guido Mantega, do Planejamento; e de Luís Gushiken, da turma da Casa, é evidente que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos; o das Relações Exteriores, Celso Amorim; e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles - para ficar em alguns exemplos - não são do mesmo time dos que se acotovelam nos gabinetes improvisados por divisões de tabiques no próprio Palácio do Planalto ou na Esplanada dos Ministérios, e que também se subdividem em várias camadas, dos andares de cima até o porão dos esquecidos, que passam meses sem despachar com o presidente.
Não se pode esperar desempenho solidário, harmonioso e entrosado de 35 ministros e secretários que não convivem, alguns se conhecem de vista ou das inúteis, maçantes e tediosas reuniões na Granja do Torto, espremidos na sala com cadeiras extras como em teatros superlotados. Ao final da temporada é provável que o presidente distribua medalhas aos que se distinguirem por êxitos pessoais. E que não serão muitos. O Ministério, na avaliação da classe, será reprovado com notas baixas.
As reflexões presidenciais nas raras pausas da agitação, que é uma das marcas do seu temperamento, infenso à solidão, mais chegado às ruidosas companhias para as folgas partilhadas, podem mirar no espelho da autocrítica e ponderar sobre a revisão da agenda das viagens internacionais. Nos sacolejos do Sucatão, enquanto não chega o superjato de US$ 56,7 milhões, a moderação e o equilíbrio entre os vôos domésticos para acompanhar a execução dos programas sociais e as travessias oceânicas para o brilho nas platéias internacionais seriam gratos ao seus milhões de eleitores e sensibilizariam os derrotados que votaram em outros candidatos.
Fazer bem o dever de casa é meio caminho andado. O mais é torcer para que o mundo globalizado não enlouqueça e que a promessa da retomada do crescimento não seja adiada para 2005.
O saco das desculpas está vazio. Atirar as responsabilidades nas costas do antecessor é um velho truque que a platéia engole por seis meses, um ano. Passou a hora de mudar o discurso do ''eu vou fazer'' para mostrar o que está sendo feito e o que ficou pronto.