Antes de dar prosseguimento ao festival de promessas de suas últimas apresentações, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria acautelar-se com conveniente consulta ao calendário deste ano, que já entra na segunda quinzena de fevereiro, e tentar a conciliação das dificuldades que se espalham por todas as áreas para cumprir o prometido com a escassez do tempo que escorrega por entre os dedos oficiais, com rapidez assustadora.
Está longe de implicância oposicionista a avaliação de que 2004 está quase perdido. Basta a colagem dos prazos e dos embaraços nos espaços vazios do ano eleitoral, que engole três meses de campanha e esteriliza outros três no constrangimento de denúncias de uso político da máquina administrativa - das quais nenhum governo escapa -, para constatar que o ano encolheu.
Mas vamos com calma. Antes de atacar outros desafios, o governo está amarrado à prioridade de enfrentar a calamidade pública de proporções gigantescas das enchentes que castigam quase todo o país. Nenhum Estado escapou da fúria das águas. Na avaliação do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, nordestino curtido nos flagelos da seca e das raras temporadas de chuvas, não há registro de um janeiro como o que este ano antecipou a estação chuvosa, que quando não começa em fevereiro e se prolonga até março prenuncia o sofrimento da terra ressecada e dos rios e açudes vazios.
As enchentes atingiram 644 municípios e o total de desabrigados, muitos dos quais tudo perderam, da casa aos móveis e utensílios domésticos, aproxima-se dos 180 mil, população de uma cidade média. São mais de 40 mil moradias danificadas e 8 mil destruídas.
E as chuvas continuam, com previsões meteorológicas nada tranqüilizadoras. A atuação do governo subordina-se aos caprichos naturais. Por ora, enquanto não escorrem as águas com céu firme, só as ações de emergência são urgentes e possíveis. Depois da sonolência burocrática, com a visita do presidente Lula e do lote de ministros ligados ao problema, o atendimento das vítimas ganhou celeridade. O mutirão espera sua hora e certamente mobilizará o governo, exigindo verbas que ainda não podem ser calculadas com precisão. A estimativa inicial de R$ 200 milhões, como advertiu o governador Jarbas Vasconcelos, de Pernambuco, só dará para a saída.
O presidente deu o sinal da sua preocupação com a consulta à Caixa Econômica sobre a possibilidade da utilização dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) na reconstrução das casas destruídas pelas enchentes.
Não se pode fazer economia com tragédia de milhões. Ao mesmo tempo em que choraminga a escassez de dinheiro e anuncia o contingenciamento de R$ 6 bilhões de verbas do Orçamento destinadas a custeio e investimento, o presidente embarca no otimismo, badalando os sinos da retomada do crescimento, pelo visto no estilo Conceição, que também ninguém viu. Na toada de investir o que puder, a lista de prioridades para os 10 meses e 20 dias deste ano são de encher os olhos e levar às nuvens o balão da esperança.
A relação das medidas na pauta dos compromissos, solenemente prometidos na última reunião ministerial, é tão grandiosa como desfile de escola de samba. Inclui o programa do Primeiro Emprego, o plano de safra recordista para 2003/2005, a ampliação da rede rodoviária, com milhares de quilômetros intransitáveis, transformados em atoleiros, e centenas de pontes destruídas; construção de casas para a transferência de moradores das regiões de risco, urbanização de favelas, Bolsa Família, Fome Zero, Luz no Campo e, para fechar o rol das mil e uma maravilhas, o Programa de Reforma Agrária.
As metas são tão ambiciosas que é difícil acreditar que não pequem pelo exagero ou rocem no delírio. Acontece que o governo, em alguns pontos críticos, aumentou o seu débito com a sociedade. Os 10 milhões de empregos a serem criados em quatro anos, com os 2 milhões a mais de desempregados, no ano passado, apenas na Região Metropolitana de São Paulo, forçam o reajuste para a mágica de 12 milhões de vagas no mercado de trabalho nos 10 meses e 10 dias deste ano perdido.
Com eleições municipais para prefeitos e vereadores em outubro, a campanha arranhando a porta com o aviso de falta de quorum no Congresso e a semana parlamentar de sete dias inúteis, o que vai pintando para 2003, na contramão do otimismo oficial, é mais um ano perdido.
Metade do mandato do presidente Lula.