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A cauda do símio


Há certas coisas que não combinam. Exemplos podem ser lembrados às dúzias. Mas, vamos ficar no que a Câmara dos Deputados acaba de nos oferecer, na excepcional reportagem que ocupa toda a terceira página do JB de ontem, como o intrigante título, em manchete, de Gasolina para duas voltas ao mundo, assinada pelos repórteres Hugo Marques e Rafael Sento Sé.

Trata-se de história curiosa de um escândalo denunciado pelo próprio autor, no impulso que mistura o receio das conseqüências do erro cometido com a penitência esperta, antes que seja tarde demais.

O Congresso, desde a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960 - lá se vão 42 anos -, purga os pecados da farra das mordomias, algumas justificáveis na fase de adaptação. Mas benefícios e vantagens, uma vez oficializados a título precário, grudam-se como ostras aos cascos dos navios.

Não deu outra. Ao longo dos anos, a cada legislatura, a farra, com invejável criatividade, acrescenta novos privilégios à longa lista dos saques aos cofres da Viúva. Na campanha para a eleição das atuais Mesas Diretoras das duas Casas, não tendo mais o que inventar como regalia para garantir o voto da maioria dos eleitores com mandato, todos os candidatos prometeram a criação da chamada verba indenizatória, que começou com R$ 7 mil e foi reajustada para os atuais R$ 12 mil.

Trata-se de vergonhosa malandragem. A verba, na desculpa esmolambada, destina-se a cobrir as despesas dos 81 senadores e 513 deputados nos fins de semana nas suas bases eleitorais. Basta apresentar recibo e embolsar a devolução. Escândalo em dose dupla na pilha sem fim. Os mais de 90% de parlamentares que não moram em Brasília -- na capital onde trabalham e têm à disposição apartamentos funcionais ou o auxílio-moradia de R$ 2.175, se preferirem dormir duas noites semanais nos hotéis - e, também, os que lá residem são mimoseados com quatro passagens aéreas semanais e mais uma para matar as saudades da ex-capital.

Evidente que tal festim de milionários que driblam o imposto de renda exige a discrição das portas e janelas fechadas, com pesadas cortinas para a segurança da penumbra propícia. E assim correu macia a muamba durante meses de desfrute venturoso.

Até que a direção da Câmara, temerosa do estouro da denúncia, arriscou o tudo ou nada na ousada decisão de colocar no seu site da internet a prestação de conta de todas as despesas, inclusive a dos gastos pessoais dos deputados com as escabrosas verbas indenizatórias.

Pois logo na estréia do site explodiu o vexame, contado em detalhes na reportagem do JB. É apenas a amostragem que registra os gastos ressarcidos nos 10 primeiros dias da convocação extraordinária dos novos ricos, que embolsaram R$ 25 mil cada, além dos subsídios do mês.

Mesmo vacinados contra surpresa nos reincidentes desatinos do Legislativo, não tínhamos visto tudo. As mais pessimistas expectativas foram superadas, não só na desfaçatez da dissipação como pelo despudor das explicações.

O fogoso tribuno gaúcho deputado Osvaldo Biolchi, cuja fama ainda não atravessara as fronteiras do seu Estado, mereceu a promoção publicitária como recordista: queimou R$ 16.973,85 em gasolina e óleo para a sua frota de veículos. Com os 8.486 litros de gasolina, calculam os repórteres, dá para rodar 85 mil quilômetros, mais de duas voltas ao mundo. Outro modelo de ética, o deputado Adão Prietto, infla o peito para esclarecer que dissipou R$ 8 mil só em gasolina, para os preparativos da festa de arromba dos 20 anos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em São Miguel do Iguaçu, no Paraná.

E por aí vai o rosário dos descaramentos. O correto deputado Chico Alencar (PR-RJ), obstinado guerrilheiro contra as mordomias, propõe o remendo conciliador da fixação de percentuais, com o limite para cada tipo de gasto.

O que é tentar tapar o esguicho de escândalo com rolha de cortiça. É cada vez mais gritante a evidência de que o Congresso ultrapassou a cota da falta de decoro coletivo e está cavando, a cada sessão legislativa, o buraco da sua perdição.

A próxima crise institucional vem sendo chocada no ninho parlamentar, com lanhos na sua autoridade moral. Ainda agora, o Legislativo saltita no piso quente da incoerência para aprovar o controle externo do Judiciário.

Convém atentar para a sabedoria popular, que já deu até marcha de carnaval, que aconselha ao macaco que avalie o tamanho da cauda antes de tentar o salto para o galho nas grimpas da árvore.

Para prevenir o tombo e não cair no telhado dos outros.


[06/FEV/2004]


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