Como fala o nosso prezado presidente aniversariante Luiz Inácio Lula da Silva! Discursa, lendo e improvisando; viaja pelo Brasil e pelos quatro cantos do mundo e lança planos, projetos, promessas, quando sempre discursa e quase sempre viaja.
Um convicto adepto do novo modelo presidencial da era da televisão. Não se pode dizer que ao atual presidente caiba a inauguração do estilo falastrão, peregrino e de generoso semeador de ilusões. Sem qualquer intenção de fomentar intrigas ou acirrar ciumeiras da troca de farpas entre o ex e o atual, é de evidência que se confere com a simples consulta à memória que, no desempenho pessoal, o antecessor Fernando Henrique Cardoso e seu sucessor se parecem como sapatos do mesmo pé. Calçam pares idênticos, da mesma cor, comprados na mesma loja. Não sei se os números também coincidem.
Os servidores de carreira do Palácio do Planalto e as equipes mais reduzidas do Palácio Alvorada e da Granja do Torto não precisaram fazer qualquer esforço para o ajuste à mudança de governo. Salvo, claro, nos hábitos domésticos, nas diferenças de temperamento, nas preferências elementares e nas rotinas dos raros instantes de folga. É tão improvável que Lula freqüente a biblioteca do Alvorada nos lazeres de fim de noite e dos fins de semanas quanto imaginar o ex-presidente FHC de calção e chuteira correndo atrás de uma bola no gramado da Granja do Torto.
O modelo idêntico não se explica apenas pelas semelhanças de temperamento e que talvez nem sejam a chave para a decifração da série de coincidências. Cada época impõe a sua moda da lenta cadência da evolução.
No depoimento de quem acompanha profissionalmente a atividade política em mais de meio século de militância, posso dizer que vi e vivi as transformações do período inicial do rádio, a fase da televisão e os passos iniciais da internet.
De ditador a presidente, Getúlio Vargas usou o rádio com parcimônia. Orador de excelente comunicação, com a voz pausada e de timbre inimitável, lia discursos em ocasiões especiais, transmitidos pelas emissoras. Seu sucessor, marechal Eurico Dutra, de lamentável dicção, trocando os esses pelo xis, fugia de microfone como o bichano do banho. No retorno de Vargas pelo voto, em 50, a televisão estava dando os primeiros passos trôpegos e na verdade só teve influência decisiva na campanha demolidora de Carlos Lacerda pela TV-Tupi, todas as noites, ao vivo, entrando pela madrugada.
O presidente Juscelino Kubitscheck foi o primeiro a se utilizar regularmente da televisão, desde a campanha, comparecendo a estúdios para as entrevistas e convocando redes nacionais para exposições sobre planos e obras de governo. E ainda usou politicamente a televisão proibindo a presença de Lacerda.
O embirutado Jânio Quadros aproveitou a singularidade da sua figura excêntrica e o abuso das mesóclises nas entrevistas durante a campanha e em ruidosa entrevista logo depois da posse.
Em tempos de ditadura, a televisão e a imprensa, sob censura, submetem-se à demagogia compulsória. Os cinco do rodízio de generais-presidentes raramente concediam entrevistas, além da montagem das coletivas. A Redentora tinha seu sistema próprio de convencimento.
O apogeu, o esplendor e o fastígio da era da televisão, com o fascínio multiplicado das redes, as facilidades dos gravadores portáteis, perpassam os oito anos dos dois mandatos do sociólogo e continuam, na mesma toada, nos 10 meses do primeiro ano do mandato de Lula.
Curiosamente, sem que as lições da experiência tenham sido aprendidas. A vaidade de aparecer fala mais alto do que as advertências sobre os riscos de desgaste com a superexposição da imagem. FHC foi crivado de críticas pelos excessos de cerimônias montadas para o anúncio de planos que não saíram da oratória e pela obsessão das viagens internacionais para colher os aplausos da fluência do expositor poliglota.
Como seu clone barbado, embevecido pelo justo sucesso dos seus improvisos vigorosos nas platéias do mundo, Lula escorrega no mesmo piso ensaboado do deslumbramento, com viagens e a chuva torrencial de promessas, de planos, projetos.
Não é possível que não ocorra aos seus competentes assessores e marqueteiros a velha sabedoria popular de que o que é demais, tal como a delícia da cocada preta, acaba enjoando.
Candidato promete; presidente realiza. O povão que vê o presidente todo dia, pela TV, ou lê o noticiário abundante dos jornais e revistas, pulando de um microfone para outro em discursos amazônicos, subindo e descendo de aviões, enchendo as horas com intermináveis reuniões que rendem o consenso das discordâncias, começa a desconfiar de que não sobra tempo para o trabalho de gabinete, o exame de problemas com assessores, os despachos com os 36 ministros e secretários-ministros, os vagares para matutar, no exame com a consciência, sobre erros e acertos, para correções e para reflexão.
Ninguém sabe tudo ou tudo aprende de oitiva. E um dos piores pecados de quem governa é a soberba.
A gente precisa, de quando em vez, de uma pitada de humildade.