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Lula inaugura novo governo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se conteve nem esperou chegar ao Brasil: antecipou aos colegas presidentes dos países do Mercosul, reunidos em Assunção, a auspiciosa novidade da imediata retomada do desenvolvimento na virtual inauguração da segunda fase do governo, sinalizada com a modesta, mas sintomática, redução da taxa básica de juros para 26%, com o corte de meio ponto percentual.

Assim, pela vereda torta do inesperado, a discutida e previsível decisão do Banco Central, crivada de críticas e elogios no jogo cruzado dos interesses e do contraditório político, ganha dimensão surpreendente no desabafo presidencial, que se apressou em afrouxar o colete que o oprimia e a embalar no otimismo, desta vez sem retorno.

Acuado no canto das cobranças, não poupou promessas na safra antecipada das esperanças. Nunca um meio ponto foi tão valorizado na seqüência de frases que raspam pelo exagero e não devem ser interpretadas ao pé da letra: ''A inflação não é mais um bicho-papão, porque foi controlada. Os juros começam a cair e agora terá início um processo de investimentos que gera empregos e crescimento. Não tem mais volta, a economia vai para frente graças à confiança que conquistamos.''

Não custa embarcar na canoa presidencial. Bem que andamos necessitados de acreditar que o governo eleito com mais de 52 milhões de votos não entrou na rota do fracasso a menos de seis meses do primeiro dos quatro anos de mandato.

Se for para confiar, vamos vestir a camisa verde da esperança. Com as devidas cautelas. O nosso presidente, distinguido pelo governo espanhol com o Prêmio Príncipe das Astúrias de Cooperação Internacional, em reconhecimento ''ao seu passado de luta pela justiça e por declarar guerra à fome dentro e fora do país'', embarcou para os Estados Unidos para cumprir agenda montada a capricho pelo zelo da nossa representação diplomática. E a importância atribuída pelo governo pode ser medida pelo tamanho da comitiva: são 10 ministros, dos 36, que acompanham o presidente no giro que inclui a conversa com o presidente George W. Bush, além de encontros com os presidentes do Fundo Monetário Internacional (FMI), Horst Köhler, do Banco Mundial, James Wolfenshon, e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias. Deve jorrar dólar de encher os cofres da Viúva.

Como as coisas por aqui continuam confusas e cinzentas, com miúdas querelas aprofundando a fenda do PT e azedando os atritos entre recentes aliados do governo, seria bem-vinda uma enérgica intervenção do presidente, com a alma aliviada das amarguras e dos erros que embaraçam os fios da incoerência das suas propostas de reforma tributária e, mais gravemente, a da Previdência Social.

Só a boa intenção não move o entulho. É necessário o molho da autocrítica, com a afinação da tática que não deu certo. Ardente cultor das metáforas que enfeitam a sua fluência de orador com badalada capacidade de comunicação, Lula usa e abusa do recurso de apelo popular, buscando inspiração nas semelhanças com o futebol e a gravidez. E aproveita a licença para as escorregadelas nas comparações. Não é a primeira vez que insiste no paralelismo entre os nove meses da gestação com os menos de seis meses do seu governo. Para ser preciso, a gestação corresponde ao tempo da campanha e da eleição, quando o futuro governo é gerado com a conquista do eleitorado pelo desempenho e compromissos do candidato até o parto das urnas que confirmam a vitória.

No balanço da confusão, o fecundo tribuno justificou o criticado desperdício de quase metade do ano, alegando que ''passamos seis meses arrumando a casa, conquistando a confiança que era necessária para votar as coisas no Congresso''.

Duas incorreções em frase curta. A tática quimérica do consenso empurrou o governo para a inversão das prioridades, buscando acordos com os aliados da banda conservadora e descuidando da consolidação da base tradicional, composta pelo PT e o feixe de siglas que o apoiaram no segundo turno e, para mal dos pecados, rachando os movimentos populares, da CUT ao MST.

E quanto à faxina doméstica, o resultado é calamitoso. O presidente encheu o governo convidando vizinhos e parentes despejados pelas urnas para se hospedarem no ministério e em todos os cômodos oficiais. E aprontou uma bagunça de albergue superlotado, com os companheiros e hóspedes empilhados em camas-beliches e com dias vazios na ociosidade da falta do que fazer.

[20/JUN/2003]

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