Sonhar não custa. Uma pitada de utopia ajuda a temperar a mistura de esperanças e frustrações de todo início de governo, no inevitável choque de contradições entre o discurso de campanha do candidato, que fala a linguagem do voto, e o ajuste do eleito à realidade do exercício do mandato.
Sem fugir à regra e, ao contrário, apertado no paletó justo, com a decepção do pequeno e ranheta grupo radical petista que não larga os seus calcanhares, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esquentou as brasas da euforia na caprichada solenidade de entrega ao Congresso das duas primeiras propostas de reformas, a previdenciária e a tributária, com discurso, a descida triunfal da rampa do Palácio do Planalto, acompanhado dos 27 governadores, ministros, dos membros do amazônico Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e a corriola dos cupinchas e penetras que se infiltra em todas as oportunidades de fingir intimidade com o poder e aparecer nas fotos. Não faltou o retoque do ônibus velho, com jeito de veículo de transporte do povão, para a travessia de duas centenas de metros entre os palácios dos dois poderes.
Enfim, um espetáculo democrático, coroado pela cordialidade dos pronunciamentos e pelo clima de otimismo do plenário da Câmara superlotado, do presidente e dos risonhos componentes da mesa, tribunas em dia de gala. Até lá não chegou o eco das manifestações de protesto de servidores, com a desafiadora presença dos dissidentes do PT, em rota de colisão, sem retorno.
A afirmação mais aplaudida do discurso de Lula, cunhada com a síntese de slogan, de fecho dourado, confiou aos parlamentares a sorte das reformas: ''Na hora em que essas propostas entram no Congresso, os senhores e as senhoras são os donos do jogo''.
Estamos, portanto, nas mãos e votos de 81 senadores e 513 deputados. E com os renovados incentivos teóricos para mergulhar no sono que embala ilusões. A proposta de reforma ou de remendos na Previdência começa pelo Art. 37, XI, da Constituição, exatamente o que cutuca o nervo exposto da fixação do teto salarial para os três poderes. E apenas para acrescentar duas palavras, ''se inferiores'', para reafirmar que o limite dos subtetos para estados e municípios é fixado pelos subsídios, respectivamente, dos governadores e prefeitos.
Pois o texto constitucional, desrespeitado pela gula dos privilegiados dos três poderes, é de clareza transparente. A remuneração, o subsídio, os proventos e pensões dos membros de qualquer dos poderes, em todos os níveis, incluindo expressamente os detentores de mandato eletivo, com suas vantagens pessoais ou de qualquer natureza, ''não poderão exceder o subsídio mensal, em espécie, dos ministros do Supremo Tribunal Federal''.
Aí começa o enguiço. Os salários dos eminentes ministros do STF batem no telhado de R$ 12.720, furam o zinco, com privilégios e vantagens, para chegar a R$ 17.720 e afagam os ministros que servem, em rodízio, no Superior Tribunal Eleitoral, com a carícia mensal de R$ 20.164.
Pelos antecedentes conhecidos, se deixar por conta dos donos do jogo, a emenda será pior do que o soneto, com o teto de arranha-céu, acima das nuvens, montado para as próximas equiparações, no modelito que transformou os parlamentares em novos-ricos, com repasse mensal mínimo de R$ 76 mil.
Está nas mãos do presidente Lula, do brio dos poucos, pouquíssimos senadores e deputados que reagiram contra o festival indecoroso das vantagens e mordomias das trampas do salário indireto, aproveitar a oportunidade única para a correção dos exageros do mais deslavado descaramento.
Ao presidente basta apelar para o que dispõem os artigos. 37, I e II, e 48, XV, convidar os presidentes do STF e das duas Casas do Congresso para a definição do teto para valer, fechando os alçapões dos subterfúgios pelos quais se esgueiram os eternos sortudos com seus sacos de imunidades.
Um gesto ousado do presidente, com repercussão que sacuda a opinião publica, mais a ajuda dos santos, talvez desperte os constrangidos inconformados do Congresso a pegar carona na proposta do governo para a limpeza do lixo que se acumula na pirâmide de insensatez suicida do Legislativo. Revendo, com honesta vontade de cortar abusos, soluções emergenciais, improvisadas para acudir as carências da mudança precipitada da capital para Brasília inacabada, em obras.
As passagens para o fim de semana do parlamentar no seu estado, com a família, e mais uma para a antiga capital, ainda não inteiramente esvaziada, os 15 salários para despesas com a sessão extraordinária são típicas ajudas transitórias, que caducaram, sem revogação, depois de mais de três décadas de consolidação de Brasília. E as muitas inventadas a cada giro da roleta da fortuna, até o escândalo do lance triplo do apagar das luzes no final da finada legislatura e no farol aceso na instalação da atual sessão legislativa, recordista de mordomias, ora ungida com os óleos sacros da reforma das instituições.
Sonhar não custa. E a faxina começa em casa.