É compreensível, mas inútil e equivocado, o esperneio dos babás e das heloísas petistas contra a moderação das reformas, afinal iniciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, forçado a bater o martelo nas fórmulas de consenso dos 27 governadores, após mais de 10 horas de conversa amaciadora e de amenos debates. Enfim, as primeiras propostas da longa agenda de compromissos do candidato devem ser encaminhadas ao Congresso, no próximo dia 30, embaladas pela esperança de aprovação de remendos e avanços na esburacada Previdência Social, à beira da falência, e na bagunça tributária das injustiças do conservadorismo.
Reformas para valer, com o sopro de mudanças profundas no destino do país, só se fazem através da tomada do poder pela violência de revoluções ou, no figurino democrático, com maioria parlamentar. Nem o presidente Lula e muito menos o Partido dos Trabalhadores reúnem as condições para impor as reformas dos discursos eleitorais ou da prosápia das declarações nos microfones e corredores do Congresso.
Para as duas hipóteses, falta o essencial: a pitada de ousadia para a pregação revolucionária, desamparada do apoio militar, ou a coerência do voto para a liderança, com suporte majoritário nas duas Casas do Legislativo, para impor as mudanças por bem ou na marra. Certamente que a alternativa revolucionária seria um suicídio, punível com o recolhimento das lideranças ao hospício. Com as feridas mal cicatrizadas dos 21 anos recentes da Redentora, que sangram quando raladas pelos testemunhos das vítimas das torturas nos porões dos Doi-Codis, e a memória dos erros políticos da insânia desatada dos atos institucionais, deixando como herança a desmoralização do Congresso - agravados com as distorções dos equívocos e exageros da Assembléia Constituinte de 86 -, o golpe saiu de moda entre fardados e paisanos. Não se sabe até quando, diante dos descalabros cometidos pela fúria dos saques parlamentares aos cofres da Viúva empobrecida.
Mas o que importa analisar é a dura realidade da paralisia do governo, dos embaraços que o condenam a negociar com a oposição, com os adversários tradicionais da banda conservadora, para chegar às fórmulas insípidas, aguadas, das reformas possíveis. Nem é preciso dar tratos à bola e cansar os neurônios, estragando o repouso dos feriados da Semana Santa e dos três dias de gandaia de começo de maio.
A evidência saltita à vista, perceptível às butucas míopes: o eleitor zonzo e perdido na barafunda partidária e na balbúrdia dos calendários eleitorais não consolidou a coerência do voto. Não teve tempo para recuperar-se do murro da boçalidade casuística do AI-2, que dissolveu os partidos que floresciam na experiência democrática da Constituição de 46, depois dos torvos anos do Estado Novo do ditador Getúlio Vargas. E, para mal das suas dúvidas e do seu desinteresse cevado pelas decepções, o pacote de eleições simultâneas, para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, confunde a sua cuca e embaça a sua escolha. Ele é tangido a optar, na maratona da digitação das urnas eletrônicas, por escolhas em níveis diferentes. Para os três votos estaduais, a sua definição sofre as poderosas pressões dos confrontos locais, da cidade em que vive, das suas amizades e preferências enraizadas nas tradições de família.
O último resultado espelha as contradições da incoerência do voto. A onda avassaladora dos mais de 52 milhões de votos que elegeu Lula no segundo turno, na reviravolta inédita que mudou o poder do secular domínio conservador para a revolucionária ocupação democrática da esquerda, não se complementou com a renovação do Congresso, com a eleição da maioria de parlamentares da mesma tendência. Não necessariamente de petistas, mas de partidos com afinidades ideológicas. O PT elegeu a maior bancada na Câmara, com 91 deputados em 513. Cresceu também no Senado, mas não chegou lá, no patamar que foi ocupado pelo PMDB na última Constituinte, para nada.
O voto que elegeu Lula negou-lhe as ferramentas para realizar as reformas, condenando-o a negociar com o outro lado. Só se negocia, cedendo para compor as soluções consensuais. As possíveis, politicamente viáveis, embora exigindo o segundo tempo dos acertos no Congresso.
Soam, portanto, como notas desafinadas, com a estridência demagógica do exibicionismo para a platéia, as infalíveis críticas dos dissidentes de plantão. Os acordos fechados entre Lula e os 27 governadores sobre as propostas de reforma tributária e previdenciária estão tão longe dos discursos de campanha quanto o presidente do candidato. São a brecha da emergência, a meia-sola para tapar os buracos do sapato gasto na caminhada.
Não envergonham os que cederam, os silenciosos e os que sopraram o trombone sem atrapalhar a música.
Reforma à toque de caixa, só com revolução ou com o voto coerente. E pela via democrática, começa pela reforma política.