O que sobrou de ministérios e secretarias, depois do corte de R$ 14 bilhões anunciado na funérea reunião do governo, no cenário adequado da Granja do Torto, lembra a visão de galinheiro de criação de frangos de raça, nos períodos de muda: equilibrados nas espichadas pernas desengonçadas, com tuchos de penas que sobraram em manchas espalhadas pelo pescoço, asas e peito e as falhas que expõem a carne vermelha, não compõem quadro que agrade à vista no cenário rural. A natureza impõe aos animais a cota de ridículo no ciclo da renovação dos que se agasalham com o cobertor fofo das plumas nos rigores do inverno.
No episódio frustrante da virtual desativação de mais da metade do governo, 40 dias depois da posse no delírio das esperanças da onda de emoção popular, a estranheza, que o chorrilho de explicações não dissipa, coleciona os seus motivos de dúvida sobre os riscos da improvisação afobada, causadora de tantos equívocos em tão pouco tempo da temporada inaugural, no deslumbramento da euforia.
Agora, francamente, as incongruências passam da conta e cavam um sulco de ressentimento que o conformismo escapista de algumas vítimas antes acentua do que disfarça.
O bigodudo ministro do recém-criado Ministério das Cidades, o ex-governador gaúcho Olívio Dutra, deu o tom da obediência petista, apressando-se a declarar que não se sente desprestigiado com o corte, que também atende pelo apelido carinhoso de contingenciamento, de 85% das verbas orçamentárias do órgão que só existe no papel e ainda não teve tempo de dar o ar de sua graça. Com a gratidão de derrotado acolhido no asilo, o ministro que viu os seus R$ 2,2 bilhões minguarem para R$ 326 milhões, engole a justificável derrota, consolando-se com a oração das desculpas: ''Todo o governo vai trabalhar com escassez de recursos. E será com esses recursos escassos que vamos avançar''.
Ora, ministro, há um engano no verbo. Ao invés da carga de cavalaria, com a ordem de avançar, o de que se trata é de um recuo, de cabeça baixa, chapéu tombado para a nuca e o poncho arrastando na poeira que cola na pele suada. Basta fazer simples conta de dividir: com míseros R$ 326 milhões para acudir as urgências de mais de 5 mil municípios, não dá para inaugurar uma bica ou fincar um poste de iluminação nos mais necessitados.
O ministro Ciro Gomes, o primeiro dos candidatos derrotados a apoiar o vitorioso presidente Lula, esfrega os fios recentes da barbicha que compensa a calvície e cerra a boca para não desabafar a sua frustração. O Ministério da Integração Nacional, criado como presente pela lealdade e firmeza do seu apoio, foi simplesmente congelado com a poda recordista de 90,76%, com o sumiço da diferença entre os R$ 2,046 bilhões e a gorjeta de R$ 186,6 milhões para instalar o filhote ministerial e elaborar os ambiciosos planos para reduzir as desigualdades regionais das nossas injustiças crônicas.
Os exemplos se multiplicam. O Ministério dos Esportes, peteca no jogo político de todos os governos, foi literalmente extinto. Com o corte brutal de 88,33% das verbas minguadas, sobram níqueis: R$ 43,1 milhões, menos do que a arrecadação de um clássico no Maracanã, no Mineirão ou no Pacaembu.
Não se questiona a imperiosa necessidade da súbita conversão do governo - em cenário de véspera de guerra com a agressão dos Estados Unidos ao Iraque, inflação botando as mangas de fora -, ao modelo do FMI e às imposições do mercado, novo ídolo da globalização. Mas, que diabo: Lula e a sua equipe econômica não foram apanhados de surpresa. Durante o tempo que quiseram, os técnicos petistas que integraram a comissão de transição vasculharam contas, refizeram cálculos, fuçaram suspeitas. E não advertiram o presidente para o tamanho do rombo que teria de ser tapado com o corte de R$ 14 bilhões nas raquíticas verbas para investimento? Avisado, é evidente que o presidente não se entregaria à orgia da criação de ministérios e secretarias para agasalhar novos aliados e consolar o infortúnio de petistas sovados pelas urnas.
Agora, em vez de molhar o travesseiro com o choro do arrependimento, o otimismo do presidente aponta, como cancela da saída, para a convocação de um mutirão nacional. E como o exemplo deve baixar de cima, começando com a fixação do teto para os salários dos três poderes, em acordo com os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), do Senado e da Câmara. No embalo moralizador, com o apelo para o enxugamento de mordomias, vantagens, benefícios, do empreguismo e do nepotismo que inundam a cobertura e os andares superiores dos gabinetes dos privilegiados do Executivo, do Judiciário e do Legislativo.
Um banho de credibilidade na esperança da sociedade, aturdida com a paulada no quengo.