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Mordida de leão, sopro de morcego

O palco foi armado com todo o capricho para a cerimônia que assinalou a segunda reunião do superministério - com seu elenco que engorda como glutão e se reproduz com invejável vitalidade -, para ouvir, durante oito horas, com intervalo para almoço, o discurso otimista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciando o corte de R$ 14 bilhões das anêmicas verbas para investimento, do Orçamento para este ano de vacas magras em pasto raspado, e as justificativas, no tom lamurioso das desculpas dos ministros do primeiro time: Antônio Palocci, da Fazenda, Guido Mantega, do Planejamento, e José Dirceu, chefe da Casa Civil.

Claro, quase todos deram seus palpites. Mas perderam seu tempo e desperdiçaram o latim. Desde logo, salta aos olhos o contraditório intimidante entre o recado dos ministros e secretários, estimulados pelo presidente a apresentar projetos e elaborar planos, dando asas à criatividade, e a afinação da pauta da turma do Palácio do Planalto, de tesoura em punho, com a perícia de alfaiate do primeiro ano, que vai cortando o pano.

Ora, cortes para o aperto do cinto na barriga encolhida, encostando nas costelas, não são coisa que se exija mostrando as canjicas. Seria o mesmo que soltar fogos em velório. Não é exatamente do que se trata. O cacife de esperanças, de popularidade do presidente Lula, continua intacto, apesar das apreensões que vincam a testa e apagam o sorriso dos mais ansiosos.

Motivos para as primeiras dúvidas espalham sombras que abrandam a soleira do verão. E algumas estranhezas reclamam explicação. Na arenga da equipe econômica, que não teve tempo para mexer no pacote herdado dos seus antecessores e assobia os motes do maestro Pedro Malan, destacou-se o encaixe da revelação de que, do corte de R$ 14 bilhões no Orçamento Geral da União, nada menos do que R$ 8,9 bilhões destinam-se a tampar o rombo nos ''encargos previdenciários'', da responsabilidade do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Erro ou malandragem? O governo não ousa bancar a acusação. Mas é espantoso, absolutamente inacreditável, que o engano de quase 9 bilhões de reais tenha passado despercebido por tantas butucas de aguda vigilância e presumível competência, desde a fase inicial da elaboração da proposta orçamentária à longa tramitação pelas comissões técnicas e pelo plenário das duas Casas do Congresso. E, ainda mais incrível, que a numerosa equipe do PT, composta pela nata dos especialistas que integraram a comissão de transição, tenha engolido a casa de marimbondos de fogo sem acusar a ferroada na língua.

Não faltarão explicações, na transparência do economês, para justificar o cochilo coletivo, extraindo o veneno da malícia. Para o governo até que não foi ruim a tardia descoberta da insignificante inexatidão, que o ajuda a transferir para as costas largas do sociólogo e dos seus ministros da área a conta dos cortes que literalmente engessa o Executivo neste ano perdido de véspera.

Os oito governadores tucanos, reunidos em São Paulo, acertaram-se no compasso do apoio ao presidente Lula e declararam-se encantados com ''a convergência de opiniões sobre os temas da agenda nacional das reformas'', como a previdenciária e a tributária. Mas, para não ficar no oba-oba, cutucaram o presidente, reclamando a definição de um teto nacional de salários para o funcionalismo e o subteto para os Estados.

Antes do início dos trabalhos do Congresso, renovado em quase 50%, apesar do clima de boa vontade e com a oposição mais encolhida do que um coelho acuado, o angu não chegou ao ponto exato.

Com discursos e promessas, o presidente procurou adoçar a pílula amarga das duras medidas restritivas. E diluir as incoerências da meta do superávit primário elevado para 4,25%, para o pagamento do serviço da gigantesca dívida externa. Jurou e repetiu que os programas sociais não sofrerão cortes. Além de outros mimos, anuncia a criação de mais uma secretaria especial, a de Promoção da Igualdade Racial, para cuidar das discriminações sociais.

Embaraços naturais em começo de governo, especialmente com a troca do poder, que escapou dos gadanhos conservadores, donos da casa desde sempre, para a experiência inaugural do governo popular.

Mas não há mel que adulçore o amargo do purgante, que desce pela goela provocando caretas e xingamentos. O governo deu uma mordida com a ferocidade do leão e sopra a ferida com a suavidade do morcego.

Tapeia a dor, o sangue pinga e mancha a roupa.

[12/FEV/2003]

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