Na sua quarta e provavelmente última tentativa de chegar à Presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva disputará pela segunda vez, no desafio da sua vida, o dramático segundo turno, agora contra o tucano José Serra. Em 89, contra o fenômeno eleitoral Fernando Collor de Mello, o petista com as barbas negras do líder sindical, amargou a primeira e mais sofrida das derrotas, punido pelo fraco desempenho no último e decisivo debate. Uma crônica com toques de novela e o fundo de ciúmes domésticos romantiza a amargura da lição da vida, que ainda reservaria duas lições, nas derrotas no primeiro turno, de 94 e 98, para o presidente Fernando Henrique Cardoso. Derrotas previstas na véspera doem menos na pele curtida pela experiência.
Agora, o quadro é outro. Lula aprendeu, sorvendo o cálice azedo do insucesso. E vai para o segundo turno na campanha curta e áspera de duas semanas, com a volta, em modelo enxuto, do horário de propaganda eleitoral.
Dissimulando a frustração com o adiamento, depois de jogar as fichas da esperança nos acenos de algumas pesquisas, que apontavam para a maioria absoluta nas urnas domingueiras da eleição do fiasco da Justiça Eleitoral, Lula infla o peito, levanta a cabeça para compor a pose de franco favorito. Favoritismo que se desenha com o risco de curvas e retas de evidências e a objetividade das análises.
O óbvio não necessita a muleta de argumentos. Lula raspou a maioria absoluta, bailando ao redor dos 45%, 46% até os 48% na polca puladinha das apurações. Com folga sobre surpreendentes percentuais acima dos 23% do candidato oficial, o ex-ministro José Serra. O venerando argumento da apelação do segundo colocado, de que no segundo turno tudo recomeça do ponto de partida, com o placar zerado, não agüenta o tranco da evidência. Favorito arranca com vantagem, o que não garante a vitória.
Se os espertos e ansiosos assessores do PT e seu marqueteiro de sucesso esfriarem a cuca, despejarem amarguras e decepções no lixo, não terão dificuldade em rastrear as circunstâncias que favorecem Lula, na análise fria dos prós e contra do emocionante galope de chegada. Já que a militância do PT não garantiu a Lula a famosa chegada da emoção para superar os 3% e quebrados que o separam do céu da maioria absoluta, reconheça-se que José Serra é, entre as alternativas viáveis, o melhor adversário. E pela razão simples e fundamental: contra o ex-ministro da Saúde, candidato do esquivo presidente Fernando Henrique Cardoso, Lula não necessita forçar a mão para enquadrar a campanha relâmpago no modelo ideal de polarização clássica de governo contra oposição.
No mano a mano, não dá para driblar, com negaças e jogo de cintura, a identificação nítida das cores das camisas: Lula é oposição; José Serra é governo. O que representa, de saída, a vantagem considerável do mando de campo e da simpatia da maioria da torcida. No caso, o encaixe com a tendência natural da maioria dos eleitores. Dos quatro candidatos viáveis, só José Serra é marcadamente governista.
Ora, certamente que os acertos, conversas e entendimentos que devem ocupar as especulações dos próximos dias têm sua importância e relativa influência no comportamento das fatias frustradas de eleitores com o travo amargo da derrota engasgada nas primeiras horas de ressaca. Certamente que a cúpula governista se esbofará na ginástica para tentar colocar em forma a turma dispersa. O PFL deve rachar, com um bom naco voltando ao aprisco oficial. Com o PMDB, um espinho pinica a grossa epiderme da velha cúpula, dispersa com a série de derrotas de seus principais cardeais.
Para onde deve caminhar a maioria dos eleitores que votaram nos candidatos derrotados da banda oposicionista? A lógica dispensa a resposta. Ciro Gomes e Anthony Garotinho - confortado com a eleição de sua mulher, Rosinha Garotinho, para governadora do Estado Rio, o que lhe garante o consolo de uma secretaria estadual - não têm condições políticas para pular a cerca de apoiar o candidato oficial. Chefe que briga com o eleitor, fratura o rosto.
Resta cobrar dos finalistas uma campanha com o toque de emoção que faltou no primeiro turno de debates amordaçados por normas impostas pelo consenso dos assessores de todos os candidatos. Lula não tem como escapar dos debates sem agredir a coerência. E dois, frente a frente, compõem outro cenário, com ampla margem de imprevisibilidade. Nos debates, que todas as redes de televisão se propõem a promover, será revisto o texto final desta eleição. Com candidatos e patrocinados devidamente advertidos para a correção das omissões dos ensaios do primeiro turno. Como as reformas fundamentais, desde a política, a tributária, da Previdência Social, até o tema ignorado e que angustia o mundo da devastação das florestas, da agressão suicida ao meio ambiente, a poluição dos rios e das fontes de água potável, a desertificação de áreas imensas, do tamanho de países europeus.
Por fim, convém atentar para a diferença na campanha do segundo turno entre os Estados com governadores eleitos e os que adiaram a escolha do governador para o dia 27. Cada qual apresenta características próprias. Mas uma coisa é o envolvimento, o empenho de lideranças e populações de Estados que não conhecem o futuro governador, outra a dos que já liquidaram a fatura. Quem já gastou o disponível não se encalacrará em empréstimos com juros de usura para ajudar os outros.
Duas notas finais. Além da faxina na cúpula de moral homogênea do PMDB, os eleitores apontaram a porta da rua ou o consolo da aposentadoria para algumas biografias de grossos volumes de feitos e peraltices: Paulo Maluf, Leonel Brizola, Antônio Brito, além dos que estão na corda bamba de apurações inconclusas.
Afinal, o indecifrável eleitorado paraense fica devendo a justificativa para a consagradora eleição de Jader Barbalho para deputado federal, com um caminhão de votos. O paparico do consolo, o fanatismo que vira as costas para a realidade ou a transferência da responsabilidade de julgar e punir para a impoluta, inatacável e isenta Justiça do glorioso Estado do Pará?