Empacado nos 41%, 42% das últimas pesquisas, com tendência de alta, é que Lula não ficará, no pique emocional da campanha, com mais quatro programas no horário de propaganda eleitoral e a duas semanas das urnas de 6 de outubro.
Como ensina a experiência, é justamente a fase em que se acelera a migração dos indecisos: dos que mudam de camisa ou embarcam na candidatura da escolha na undécima hora, com a coceira para entrar no corso do favorito e pegar carona na festa da vitória.
Líder das pesquisas desde as primeiras sondagens, o candidato do PT, com a plástica em regra para caprichar no visual e no discurso contido, limar as arestas da rejeição dos empresários, da elite e da classe média, escorrendo como melado para as camadas populares, certamente que contabiliza boas razões para a expectativa otimista.
Mas com o pé atrás, acautelando-se para as surpresas que pontilham os caminhos das suas três derrotas. Na véspera, em vários pronunciamentos, o tucano José Serra garantiu que não agrediria Lula. Deve ser coisa de marqueteiro o aviso com sinal trocado para desarmar a atenção do adversário. No programa eleitoral da mudança tática, de impecável roteiro tático, o candidato oficial atacou Lula com desabrida violência, apelando para os truques do encadeamento de imagens de épocas e situações diferentes para compor o impacto da seqüência, montada com os recursos do computador.
Lula foi desafiado para a briga. Antes de decidir o revide, certamente que aguardará a reação do eleitorado para decifrar o enigma eterno do comportamento da sociedade. Sacudidela de tal brutalidade tanto pode virar a direção da aragem e embalar o agredido com golpes abaixo da linha da cintura como demolir convicções na dança dos índices.
Em qualquer caso, Lula está com a classificação virtualmente garantida para a hipótese de segundo turno. Com mais do dobro dos índices de José Serra e a base consolidada da militância petista, alvoroçada pela esperança de vitória, tão próxima e certa que pode ser tocada com a ponta dos dedos, no pior dos tombos não desabará no chão.
Mas se as coisas correrem no jeito do figurino do PT, com a bulha na boca de urna dos milhares, milhões de militantes de carteirinha, que se confundem com os simpatizantes de fé, o barbudo liquida a fatura no primeiro turno, com o salto de mais quatro pontinhos nas pesquisas, confirmados com o resultado da apuração oficial.
E, sem fugir do assunto, mas pedindo licença para um rodeio, se Lula chegar lá, o eleitorado fluminense poderá guardar o título de eleitor no baú até as próximas eleições: a sucessão estadual está praticamente decidida com a saúde da candidatura da senhora Garotinho, dona Rosinha Matheus, com folga de vários corpo sobre os seus anêmicos adversários, embolados no humilhante empate técnico da margem de erro. Afinal, com alguma vantagem o eleitor deve ser contemplado pelas longa espera nas filas previstas para a complicação de seis eleições simultâneas.
Mas, voltando ao nosso tema. O eventual segundo turno entre Lula e Serra pode ser decidido pelo modelo de confronto que prevalecer no choque entre os finalistas. Lula é oposição, com tradição esquerdista e o vermelho do estandarte um pouco desmaiado para não assustar o voto que se orienta pelos seus interesses. No canto oposto do ringue, Serra é governista, com respingos biográficos socialistas, adotado pelo centro.
Mas, o grosso do eleitorado no estouro que procura o rumo do favorito e decide a eleição, seguirá o rumo do sinal mais nítido. As diferenças táticas são óbvias. Serra esmurrará Lula com luvas de chumbo para caracterizá-lo como o espantalho do centro, que não inspira confiança aos assustadiços conservadores .
Lula dará voltas no tablado para escapar da troca de golpes com envenenadas saraivadas ideológicas. Partindo para o contra-ataque de encurralar Serra no canto oficial, como o candidato do governo, o chapa-branca ligado aos erros e fracassos do governo, à impopularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso e o contrapeso da fadiga de oito anos dos dois mandatos emendados.
Luta para ser decidida nos 20 minutos dos dois blocos diários do programa eleitoral. Com 10 minutos da divisão exata para cada finalista. Às tardes, das 13h às 13h20 e à noite, na faixa nobre, das 20h30 às 20h50.
E que começa 24 horas depois de proclamados os resultados do primeiro turno e termina a 25 de outubro, no penúltimo dia antes das eleições, no dia 27, último domingo do mês. Ufa!