Programas de salvação nacional, com soluções miraculosas para todos os problemas, desde a seca do Nordeste ao desemprego, passando pelo aumento do salário mínimo e a luta sem trégua contra a corrupção, distribuídos em livros e folhetos - catataus de centenas de páginas, redigidos em linguagem empolada, com desenhos, gráficos e tabelas - são enfeites de campanha para o desfrute de intelectuais, mas jamais decidiram o voto majoritário do povão.
Essa singela evidência, que se comprova com o simples repasse pela memória de todas as crônicas eleitorais, desde a derrubada da ditadura do Estado Novo à que se arrasta, com monotonia chocha, sacudida pelo último debate, é um dado fundamental como ponto de partida para as tentativas de interpretação das singularidades das alternâncias na briga pela sucessão dos oito anos dos dois mandatos emendados do presidente Fernando Henrique.
Claro, não se pode tocar a carruagem, durante meses, pelos caminhos e atalhos de uma campanha assobiando o samba de uma nota só. Ao candidato cobra-se que diga o que pensa e o que pretende fazer. Nos comícios, que sobrevivem esmagados pela audiência de milhões dos programas de propaganda eleitoral em rede nacional de rádio e televisão, o pedinte de votos, em cada região, certamente que se previne para a abordagem das reivindicações locais, destacadas no painel amplo do enfoque nacional.
Exemplo didático acaba de nos oferecer o candidato oficial, José Serra, na sua excursão pelo Nordeste na caça aos votos escassos na região onde o governo anda em baixa cotação. Com esperta competência, saltou à frente do pelotão dos quatro candidatos viáveis, relançando, com os retoques da adaptação ladina, o slogan de JK para prometer ''20 anos em quatro'', com o abatimento de um ano da diferença dos mandatos. Compromete-se a transformar a região mais pobre do país no maior pólo turístico do mundo.
Com os devidos descontos à ênfase do discurso para engambelar o eleitor em cima do muro da hesitação, a jogada é perfeita e amarra o candidato a compromissos explícitos e detalhados e que, se eleito, lhe serão cobrados.
Mas não é o que costuma decidir eleição, conquistando os votos nacionais. Todas as campanhas, sem exceção, escorrem para o leito do contraditório que separa, diferencia, opõe os favoritos na atropelada decisiva.
A primeira derrota do brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN, em 45, com a eleição do general Eurico Dutra, foi definida com o apoio, arrancado à última hora, de Getúlio Vargas, no seu exílio voluntário em São Borja. Vargas, depois de 15 anos no governo, de 37 a 45 com o controle da imprensa censurada e poderes absolutos da ditadura assumida, foi, até o suicídio, em 24 de agosto de 54, o divisor que demarcava o gramado político. Com o seu suicídio, a UDN começou a morrer, até a inglória execução a sangue frio pelo AI-2, de 27 de outubro de l965, no governo inaugural dos quase 21 anos de arbítrio, do general udenista Humberto Castello Branco.
Getúlio voltou nos braços do voto em 50, no bis da derrota de Eduardo Gomes. E à sombra da sua memória, viva no coração do povo, Juscelino Kubitschek elegeu-se em 55, derrotando o candidato da UDN, general Juarez Távora.
A UDN ocupou o espaço da oposição no dueto com o PSD governista. Governo e oposição dividindo ao meio o latifúndio conservador, centrista e liberal. Na garupa da popularidade de Jânio Quadros, a UDN por menos de sete meses saboreou o gostinho do mel da desforra, na ilusão do poder.
Com a renúncia do aloprado Jânio e a posse do vice João Goulart, o campo começa a ser remarcado. Governo e oposição vestiram as camisas ideológicas para o racha entre o centro e esquerda, que seria extremado à radicalização nas duas décadas de arbítrio do rodízio de presidentes fardados.
A mesma nota da afinação da campanha de 89, com a eleição de Fernando Collor de Mello, centrista com discurso das mudanças, derrotando a dupla da esquerda formada por Lula e Leonel Brizola.
O formato descolore-se com a eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, em 94, e a reeleição em 98, ambas emplacadas com o sucesso do real, escora da estabilidade financeira com o fecho do longo ciclo da inflação.
Agora, a campanha estava perdida, às tontas em meio ao nevoeiro dos truques dos marqueteiros e a mascarada dos candidatos. Lula com ternos e palavrório para a conciliação com os empresários; Ciro forçando a barra para a pose de candidato de convicções socialistas; José Serra dançando o miudinho para posar como candidato independente.
Ora, a macaqueação não resistiu ao primeiro debate para valer. A campanha foi reciclada para o modelo clássico do confronto polarizado entre governo e oposição, arquivando o discurso ideológico. E será assim daqui por diante. Nos debates, nos discursos, nas entrevistas dos candidatos.
Não adianta espernear. Como ensina velho provérbio, cada um dá o que tem. Ou mostra o que é.