É tão inevitável quanto inútil o esforço de espremer os miolos em especulações sobre o convite do presidente Fernando Henrique Cardoso, aos quatro candidatos à sua sucessão, para os encontros de uma hora para cada, programados para a próxima segunda feira, dia 19, por coincidência na véspera do início da propaganda eleitoral, que se prolonga até 3 de outubro.
Das tolices e bravatas de Garotinho, tudo o mais é absolutamente transparente: as intenções de FH e suas repercussões nos diversos setores para os quais se dirige a montagem da série de reuniões no Palácio do Planalto.
Não é preciso queimar neurônios para listar os objetivos presidenciais, relacionados em entrevistas preparatórias. A iniciativa inédita e civilizada manda recados explícitos para o mercado, os empresários e empreiteiros, que se contorcem em cólicas no receio dos riscos do futuro incerto. Claro que também retoca, ajeita, adorna o palco para as despedidas dos oito anos de dois mandatos e o tático giro pelo mundo para o distanciamento das intrigas e críticas dos primeiros meses do futuro governo. E envolve os candidatos no constrangimento dos ataques oportunistas ao acordo com o Fundo Monetário Internacional.
É só e não é pouco. Irrelevantes os seus efeitos sobre a campanha que se aproxima da longa reta final do primeiro turno. Não muda um ponto percentual nas pesquisas. Com 19 programas no horário eleitoral e dezenas de debates, entrevistas, mesas-redondas anunciadas pelas redes de TV, rádios, jornais e revistas, o eleitor certamente terá melhores oportunidades para consolidar sua tendência de voto, rever a escolha ou, entre os mais de 10% de indecisos, a clássica acomodação dos retardatários na tradicional distribuição dos definidos. Não há exemplo de estouro em massa de hesitantes para os baldios de azarão, surpreendendo os favoritos. Ao contrário, favorito atrai o indefinido, que salta do muro para engrossar o corso da vitória.
Portanto, convém apurar a vista, limpar os ouvidos, encher a matula de paciência e preparar-se para uma hora e 10 minutos diários, de segunda aos sábados, para a competição de consagrados marqueteiros na montagem de programas milionários, com os truques da criatividade para vender a imagem do candidato maquiado como astro de novela, em encaixes para curtos recados de impacto.
Até aqui, os debates frustraram as expectativas do confronto de propostas, da discussão esclarecedora das idéias de candidatos a presidente e a governador de 27 Estados. São muitas as razões, entre as previsíveis e as que pegaram de surpresas as televisões e rádio que pularam na frente.
Debate no figurino perfeito coloca frente a frente dois candidatos no mano a mano do segundo turno. Até três, quatro debatedores dá para compor o elenco. Além de quatro, escorrega-se para a balbúrdia do bate-boca ou para o engessamento de manequins no modelo das normas restritivas.
Assessores e marqueteiros carregaram nos ombros bem pagos a culpa pelas normas ditatoriais que furaram o teto do absurdo nos debates patrocinados com alto nível de competência pela Rede Bandeirante. Com o deboche dos 30 segundos para a pergunta única dos quatro jornalistas convidados ao candidato desconhecido, posteriormente sorteado.
Ora, insistir nos debates, sem reformar as normas do AI-5 eleitoral, será desgastante para as emissoras e vexatório para os jornalistas. Esta é a hora exata para uma pacífica rebelião, com o simples expediente de recorrer diretamente aos candidatos para a discussão das modificações indispensáveis.
Ficando claro e explícito, que sem a democratização do código da censura, nada feito. Debate sem debate é uma farsa.