No mês que falta para a campanha entrar na reta decisiva do horário de propaganda eleitoral em rede nacional de rádio e televisão é improvável que se altere a posição dos candidatos na linha de largada, com Lula alguns pontos à frente, seguido de Ciro Gomes e o último da trinca dos viáveis, José Serra, o tucano oficial.
Certamente que os índices coincidentes das últimas pesquisas deverão sofrer alterações, mas sem modificar a ordem dos colocados. Nada se enxerga no horizonte que prenuncie grandes turbulências. Em todo caso, convém prestar atenção no que se esconde atrás das nuvens negras, que aconselham a cautela do guarda-chuva e da capa antes de sair de casa para enfrentar o desafio dos assaltos nas ruas da insegurança.
Em luminoso texto de 30 linhas, acolhido com merecido destaque na abertura da seção Cartas ao Editor , do JB de ontem, o veterano jornalista Pedro do Couto, um especialista de celebrada competência na análise de pesquisas, define o quadro em poucas linhas: ''A sucessão presidencial será decidida no segundo turno entre Lula e Ciro Gomes''. Detalha: ''Serra e Garotinho estão em queda livre, revelando uma tendência que o clima da campanha e os números consolidam''. E mais disse, na mesma toada.
Não chego a expor-me com tão temerária ousadia nem vou tão longe. Antes de apostar nos classificados para o segundo turno, é divertido acompanhar as cambalhotas do eleitor cada vez mais independente, desligado do balaio de siglas em calamitosa desmoralização. Parece recomendável aguardar pelas suas reações ao desempenho dos candidatos nos dois horários de meia hora, nos três dias semanais do rateio com os postulantes do feixe de eleições simultâneas, antes de arriscar o cacife da imparcialidade que sustenta a confiança do leitor em tempo de paixões exaltadas.
Deixando os números em segundo plano e seguindo as curvas das tendências do voto com o olho da experiência, é possível antecipar os próximos lances, acompanhando o raciocínio de Pedro do Couto. A liderança de Lula, desde as primeiras sondagens, atravessa a zona clássica de turbulência das três derrotas sucessivas em 89, 94 e 98. O barbudo escorregou do patamar acima dos 40% e equilibra-se numa perna só no degrau dos 33%, 34%. Ainda não conseguiu firmar-se e sacudir o pó. Nos insucessos da sua coleção, o balão murchou até 27%, 28%, nunca abaixo de percentual respeitável, mas insuficiente para subir ao céu da maioria absoluta que emplaca a vitória.
Não se trata de fenômeno indecifrável. Lula é o único candidato com o lastro de votos de inabalável fidelidade dos militantes e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores. Em todas as campanhas, pula na liderança com a imediata sustentação da sua base de cimento armado. Pelo caminho vai arrebanhando descontentes com o governo e, à medida que ameaça botar a mão na taça, excita as desconfianças petrificadas da maioria conservadora, que entra em pânico e estoura na disparada para o abrigo na alternativa tranqüilizadora.
É por aí que Ciro Gomes galgou o segundo lugar, sete pontos acima de José Serra, uma diferença que tende a ampliar-se na coerência dos índices das pesquisas recentes. Há tempo e muito espaço na mídia para esmiuçar a explosão do ex-governador do Ceará. Considero que, à margem da sua postura oposicionista e da ênfase em temas populares, apesar da linguagem empolada pelo cacoete do economês, o seu desembaraço na televisão, a fluência no improviso são as suas armas mais poderosas.
Nada mais previsível do que a queda de José Serra, na alarmante constância das duas últimas pesquisas. O alvoroço no arraial governista acionou a campainha do pânico, com a dissimulação de desculpas e evasivas bobocas. Tão tolas como as mezinhas receitadas na reunião da cúpula em clima de velório. A começar pela presença do presidente Fernando Henrique, em vazante de impopularidade, nos programas de televisão. É como socorrer náufrago amarrando no seu pescoço a ponta da corda da âncora.
No rebuliço oficial apela-se para a óbvia convocação de governadores, prefeitos, ministros e candidato para o mutirão salvador. Mas, o mais gracioso, delicado e galante conselho partiu do governador do Piauí, Hugo Napoleão, recomendando ao candidato que relaxe a sisudez do rosto contraído com a simpatia do sorriso, com os dentes à mostra.
Conselho que tanto serve para candidato como para anúncio de dentifrício.
Villas Boas-Corrêa (villasbc@unisys.com.br) escreve no JB Online às quartas e sextas -feiras