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Denúncias lançadas ao vento

Com a implacável memória que nada esquece, o ex-senador Antônio Carlos Magalhães reconstitui a conversa com o presidente Fernando Henrique Cardoso, em 99, quando foi tratar da privatização das teles e das denúncias de propina envolvendo o então diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira, destacado tesoureiro e arrecadador de recursos para as duas campanhas do candidato tucano.

ACM abre aspas para repetir a frase ouvida do presidente, curta, grossa e definitiva: ''É preciso demitir o Ricardo''.

Palavras o vento leva e se perdem no ar. A impulsiva reação presidencial dissolveu-se no seu temperamento contemporizador e na má vontade em ferir amigos que lhe prestaram serviços. O pivô de mais um episódio embaraçoso, que constrange o presidente, salpica no governo e paralisa a emperrada campanha do candidato oficial, José Serra, foi um eficiente caixa, garantindo doações para as despesas eleitorais do presidente e do candidato. E a gratidão entorpece o duro dever de apurar e punir acusações, por mais graves que sejam.

ACM cobra o reconhecimento das muitas denúncias que levou ao presidente nos tempos de estreito relacionamento pessoal e das que formalizou perante autoridades encarregadas de zelar pelo dinheiro público.

Em depoimento à Polícia Federal, não apenas repetiu e detalhou o que informara ao presidente, como fez entrega de 13 folhas de documentos comprovando as gravíssimas irregularidades patrocinadas por Ricardo Sérgio nas privatizações da Telemar. Desconhece em que pé anda ou pára a série de denúncias e a sua documentação. Desconfia que foram sepultadas na mesma vala em que o presidente enterrou os seus incômodos cadáveres.

Mas, a lenidade presidencial diante de fatos de tal seriedade justifica a estranheza e a severidade da cobrança. Vai à forra: ''É mais uma denúncia do ACM que se comprova, tal como as contra o Jader Barbalho, o DNER, o Ministério da Integração Regional e a Sudam''. Para ficar nas mais importantes. Algumas, investigadas pelo Ministério Público. De outras, não há notícia.

Na fervura da pré-campanha eleitoral, véspera das convenções nacionais entre 10 e 30 de junho, não é fácil fechar a operação de rolar a pedra do esquecimento, contornando os riscos de CPI, da convocação dos acusados para prestar depoimento perante o Congresso, enfrentando o fogo cruzado das perguntas da oposição; das investigações da mídia e da probabilidade da descoberta de documentos comprometedores.

Afinal, não se trata apenas de mais um escândalo. A candidatura de Roseana Sarney, quando disparava nas pesquisas e encostava no favorito Lula, ultrapassando o candidato oficial, foi detonada pela batida policial no escritório da empresa Lunus, com o flagrante dos R$ 1,34 milhão em pacotes de R$ 50, arrumados na mesa.

Ora, o ex-diretor do Banco do Brasil, segundo a denúncia, embolsou a gorjeta de R$ 15 milhões para facilitar a compra da Vale do Rio Doce pelo empresário Benjamin Steinbruch, do grupo Vicunha, que detém o controle da Companhia Siderúrgica Nacional. São mais de 11 vezes o total que posou para as fotos de delegacia e que levaram à renúncia a candidata do PFL.

Em notas de R$ 50 daria para forrar o gabinete do presidente do Banco do Brasil.

A clássica manobra de abafar o rumor do escândalo, entre enfáticos pronunciamentos exigindo a apuração, não atira areia nos olhos do eleitor que lê jornais, assiste a TV e sabe das coisas. Não é o ''trololó eleitoral'' do menosprezo do candidato nem o ''diz-que-diz'' da desclassificação do presidente FH.

Leva mais jeito de bomba com carga de dinamite de arrasar quarteirão.

Villas-Bôas Corrêa, repórter político do JB

[08/MAI/2002]

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