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Cada um com seu cada qual?

Villas-Bôas Corrêa
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Separação amigável

Como casal moderno, civilizado e independente, o PFL e o PMDB comunicaram aos amigos e à sociedade que vão caminhar separados na campanha e no primeiro turno da eleição presidencial de 2002, cada um com o seu candidato. Os presidentes das duas legendas, o pefelista senador Jorge Bornhausen e o peemedebista deputado Michel Temer, assinam a participação em declarações coincidentes e previamente combinadas na mesa do almoço do distrato, bisando os motivos do afastamento de corpos, com a união das almas preservadas no gelo, para futura serventia.

Na verdade, como nos desconchavos domésticos, o anúncio do rompimento do contrato político soleniza uma situação de fato, que estava sendo prolongada com notórios e recíprocos constrangimentos. E abre a porta para o despejo sumário dos tucanos, o terceiro na parceria que rendeu grandes lucros na fase rósea da popularidade do presidente Fernando Henrique, padrinho e grande beneficiário dos sete anos de fraterno rateio de vantagens dos dois mandatos emendados.

A sociedade chega ao fim ou interrompe-se por prazo determinado pelas muitas razões que se cruzam nos desvios da contradição. O fato novo que ateou fogo na gasolina derramada é a ascensão da candidatura da governadora do Maranhão, Roseana Sarney.

Ora, a descoberta - na inesperada aposta do PFL, que deu certo, de testar a viabilidade eleitoral da candidata que começava a aparecer nas pesquisas, promovendo-a a principal estrela da sigla nos dois programas de propaganda partidária - deveria ser saudada com entusiasmo pelos aliados de boa fé, como a saída para a entaladela da indigência de nomes para a montagem da clássica consagração do consenso em torno da solução natural.

Aconteceu exatamente o contrário. Nos esconsos da delicada cuca dos tucanos pousara a implícita, mas transparente, cláusula preliminar de que ao PSDB cabia o direito sagrado de indicar o cabeça de chapa. Não é o maior nem o mais bem estruturado partido da trinca que ora se desmancha nos rapapés das despedidas. Mas o partido do presidente Fernando Henrique Cardoso, com melhores quadros e o discurso moderno da socialdemocracia. O arranjo acomodava cada um no seu lugar cativo na chapa aliancista: presidência para o PSDB; vice para o PFL e ministérios de obras e verbas para o PMDB.

Os saudosos tempos de picuinhas, intrigas, arrufos e amuos que se desfaziam com a intermediação solícita da envolvente lábia do presidente Fernando Henrique foram dinamitados por sucessivas cargas de explosivos. No Congresso, o PFL é o surpreendente sócio do PT nas votações que desafiam e derrotam o governo.

O veneno que arruinou o relacionamento foi injetado pelas agulhadas das pesquisas. Com todas as desconfianças e suspeitas divergências entre os índices dos diversos institutos, os profissionais do ramo sabem que os percentuais que assinalam curvas de tendências antecipam as preferências do eleitorado. E o tripé desequilibrou-se quando os percentuais balançaram as estruturas do prédio. Os candidatos do PSDB não alçam vôo, batem asas na aflição dos índices de um digito. E é tal a desordem na legenda presidencial, que o ministro da Educação, Paulo Renato, antecipou-se e renunciou à candidatura empacada, reconhecendo que o preferido do dono da casa é o ministro da Saúde, José Serra. Falta a concordância do governador Tasso Jereissati, para fechar a conta.

Os escombros do PMDB implodido pelo grupo de homogêneo padrão moral do ex-presidente e principal liderança, o ex-senador Jader Barbalho, têm à disposição um bom projeto de candidato, o governador de Minas, Itamar Franco, com razoável índice nas pesquisas, vetado pelo presidente e odiado pelo grupo palaciano. Fora de Itamar é o salto de olhos vendados na piscina vazia.

Em atitude madura e de fina educação, o PFL e o PMDB tomaram a iniciativa de desfazer o compromisso, liberados para a briga pelo voto no primeiro turno com candidatos próprios. O PSDB, que não foi convidado para o almoço, engoliu a desfeita e, pelo seu presidente, deputado José Anibal, saudou a liberação como quem se desprende de algemas.

No fundo, o recibo no consumado e a trégua para a travessia do longo trecho de meses de férias, recesso parlamentar, festas natalinas e de passagem do ano, até março, quando as articulações para valer arrumarão as cartas na mesa. Até lá, o traço ponteado das pesquisas no vazio continuará a acompanhar improváveis oscilações dos favoritos.

Villas-Bôas Corrêa é repórter político do Jornal do Brasil

[14/DEZ/2001]

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