Domingo, 21 de Outubro de 2001

Sexualidade depois dos 60

Entrevista/ Anna Lydia Amaral

Anna Lydia Pinho do Amaral é médica ginecologista e obstetra. Doutora em ginecologia pela UFRJ, é membro titular da Academia Nacional de Medicina e foi presidente da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia do Rio de Janeiro.

- A quantas anda a sexualidade da mulher acima de 60 anos?

- A ótica tem que ser diferente naquelas com união estável, teoricamente monogâmicas, e nas outras, livres para uniões temporárias. É um problema sério e bastante comum a falta de interesse sexual das mulheres casadas. Elas não querem fazer sexo, acham um ''porre''. Gostam do status, do carinho, da amizade, da companhia e da família. Quase sempre dizem que a culpa é do marido, que a ereção não é a mesma, que ele está aposentado, só atrapalhando a sua vida, etc.

- Mas essas mulheres nunca gostaram do sexo com o marido?

- Um bom sexo, gratificante, só no início do casamento. Depois elas perdem o interesse. Há exceções, claro. Uma senhora de 74 anos, por mim operada, casada há 52 anos com um senhor de 76 anos, no pós-operatório imediato já queria voltar ao sexo diário. As bodas de ouro de outro casal foram comemoradas numa suíte de motel, com muito champanhe e múltiplos orgasmos. Existem casais muito bem entrosados, nos quais o sexo é freqüente, variado e gratificante. Sempre lembro às minhas clientes que devem lutar pelo sexo prazeroso, que não se transformem em esposas amorfas, e se preciso for, que procurem uma terapia sexual.

- É verdade que houve grande aumento de pacientes HIV positivos na terceira idade?

- Sem dúvida alguma. Segundo dados fornecidos pelo prof. Carlos Alberto Moraes de Sá, responsável pelo excelente trabalho realizado no Hospital Gafrée-Guinle, até o ano de 1990 eles só tinham identificado um casal soropositivo com mais de 60 anos. De 1995 até 2001, entre 1911 pacientes soropositivos, esse número aumentou para 86. Isso é alarmante.

- A que se atribui esse aumento?

- Diversos fatores contribuíram para esse aumento, principalmente quando a disfunção erétil recebeu uma série de novos medicamentos, devolvendo aos homens a chance de uma ereção normal. Acrescente-se aos medicamentos, o uso de prótese e injeções penianas. Isso fez com que os homens voltassem a transar sem ter o medo e a vergonha de falhar na hora, em outras palavras, de serem rotulados de ''broxas''. Hoje, homens de todas as idades podem levar uma vida sexual normal.

- Eles não usam camisinha?

- Os homens mais velhos apresentam resistência ao uso das camisinhas, já que na sua juventude seu uso não era obrigatório. No decorrer da vida, muitos se separaram e procuraram inúmeras parceiras. Se não se protegem, podem ser contaminados e contaminar.

- E as mulheres?

- A mulher mudou seu perfil físico e emocional. As que fazem terapia de reposição hormonal mantêm o mesmo frescor e vigor de quando eram mais jovens. A isso se somam cirurgias plásticas e hábitos saudáveis. Muitas dão banho de juventude e sexualidade além dos 60 anos. Com a intolerância vigente nas relações atuais, o número de mulheres com parceiros extras aumentou demais. E como o número de mulheres é maior do que o de homens, um homem pode se relacionar com diversas mulheres. Se a camisinha não for usada...

- As mulheres com mais de 60 anos se masturbam com tranqüilidade?

- Muito. Elas se masturbam sozinhas, com seus pensamentos, através da internet, ou mesmo assistindo a filmes pornôs.

- Os objetos comprados em sex shops são utilizados por elas?

- Sim. São usados com bastante freqüência. Elas não ficam envergonhadas, porque a sexualidade fala mais alto. A mulher de 60 anos, hoje, é uma mulher jovem, que tem vida, e sabe tirar proveito da sua sexualidade...

-

varanda@jb.com.br
www.camanarede.com.br


E-MAILS E TELEFONES
Copyright © 1995, 2001Jornal do Brasil S/A, Primeiro Jornal Brasileiro na Internet

 
Versão para imprimir   Enviar por e-mail