Coqueiros que bailam no ar, o intenso azul em diversos matizes que definem o céu, a água do rio e a água do mar. Uma jangada que flutua e percorre o espaço. A brisa constante envolvente e brincalhona acaricia meu corpo e minha alma. Que momento supremo de grandiosa generosidade da natureza!
Meu pensamento percorre o tempo e chega até as feridas da alma. Olho para elas e, outra vez mais, cuido delas. Só que, desta vez, percebo que são cicatrizes. As feridas surgiram pelas ofensas e desrespeitos, pela violação dos espaços e pelo excesso de raciocínio no esforço exagerado de criar a paz a todo custo. Negar a raiva e a dor não funciona. A raiva precisa ser vivida na sua legitimidade. Mas como todo visitante que chega, precisamos conhecê-la, precisamos descobrir o que provocou a sua visita. A princípio ela não quer conversa, só quer ficar ali, vociferando, ou, então, não quer ser perturbada. E é nesse ponto crítico que precisamos chamar nossos melhores recursos para ver além da irritação e da exasperação do ego. Nosso self precisa nos ajudar na exploração dessa onda emotiva. É preciso aprender a respeitá-la como mestra.
Passamos muito tempo elaborando alguma ferida provocada pela arrogância ou ignorância de alguém e sofremos repetidas vezes. Enfrentamos dificuldades para nos livrar da raiva, e, muitas vezes, é porque a estamos usando para ganhar forças. No início, ela nos é de grande valia. Mas, com o tempo, precisamos dissipá-la, pois a raiva constante é um fogo que queima nossa energia vital. A angústia e o tormento de tempos passados costumam surgir na psique numa freqüência cíclica. A cada ciclo precisamos fazer um expurgo profundo, um ritual de higiene mental periódico, que nos libera, pois carregar a raiva antiga além do ponto de sua utilidade é nocivo à nossa saúde.
Chega, então, a hora de perdoar, a fim de liberar a psique para que ela volte ao seu estado de calma e paz. Na nossa cultura existe a idéia de que o perdão é absoluto. Tudo ou nada. A idéia de que perdoar é fechar os olhos e agir como se nada houvesse acontecido. Mas isso não é verdade. O perdão tem muitas camadas, muitas estações. O importante é começar e persistir no processo. A conclusão é trabalho para o resto da vida. Para algumas pessoas, perdoar é um dom, para outras, trata-se de uma técnica a ser aprendida. Cada coisa a seu tempo.
Transformar a raiva através do perdão significa deixar de pensar no acontecimento, tirá-lo do primeiro plano. Em seguida, evitar resmungos punitivos e atitudes hostis e ressentidas. Ao evitarmos punições desnecessárias, estamos reforçando a integridade da alma e da ação. Usar de generosidade. Praticar o esquecimento consciente, recusando-se a invocar a situação, irritando-se com pensamentos e emoções repetitivas. Esquecer é uma atividade, não uma atitude passiva. Perdoar é esquecer e se tornar livre para ir e vir. Voltar ao mar, ao luar, a tecer, a escrever, a pintar, a dançar.