Já é noite. A viagem foi tranqüila, marcada um pouco pelo meu cansaço. Chego à casa de minha amiga. Nossa amizade é de muitos anos, simples e profunda. Entro na sala e pergunto pela meninas. Ninguém se apresenta. É comum elas virem me receber. Estranho a ausência. Vou até o quarto e encontro Cloé e Morgana encarapitadas na maciez das almofadas da cama, Engraçadinha deitada no chão. As três levantam suas cabecinhas espertas e silenciosamente me saúdam, com olhares de reconhecimento.
São três seres que a vida uniu numa mesma casa aos cuidados de uma alma dadivosa e amorosa. Cada uma delas tem temperamento diferente e muito próprio. Engraçadinha foi a primeira a chegar. Fora abandonada no fundo de uma garagem. Cloé veio em seguida, retirada de uma instituição de adoção. E Morgana vivia num casarão velho, disputando restos de comida que conseguia encontrar, sendo ainda tão novinha.
Todas as vezes que vou à casa de minha amiga, fico observando a maneira atenta e silenciosa, alerta e presente, de se comportarem. São felinamente relaxadas. Seus corpos expressam exatamente suas vontades.
Quando querem receber ou dar afeto, sabem chegar. A comunicação é subliminar, via inconsciente, tudo se faz como deve ser feito.
Penso na qualidade de ser dessas três gatinhas. Quantos ensinamentos podemos ter a partir dos seres que estão à nossa volta. Todos os reinos da natureza trazem uma mensagem para o mundo. Porque tudo que existe tem uma qualidade e uma finalidade evolutiva. Nada é por acaso, a incerteza está na nossa falta de conhecimento.
Na medida em que nos doamos, e exercemos nossa compaixão, entramos em comunhão com nosso centro. E, a partir de nós mesmos, vivenciamos uma espécie de meditação com o outro. O estar presente, nesse momento, simplesmente estando.
É isso que Morgana, Cloé e Engraçadinha me têm ensinado. A presença silenciosa, doação de estar, a atenção alerta mas sem tensão, os espreguiçamentos para manter o corpo ágil e disponível. Minha amiga me ensina cada vez mais a crer na energia do pensamento, na imensa capacidade de poder dizer sem falar. Na compaixão pelos animais e pelas plantas e pelos humanos. No carinho com as pedras e os cristais, na harmonia de criar o bem-estar e ofertar, generosamente, a capacidade de amar.
Outro dia, eu estava lá e adoeci. Sentia-me mal, enjoada, com dores de cabeça e abdominais, e fraqueza geral. Uma virose daquelas! Minha amiga teve que ir trabalhar e fiquei chapada na cama, sem ânimo para nada. Sozinha no apartamento, debaixo de três cobertores, ainda sentia frio. Consigo olhar à minha volta e vejo as três gatas no chão olhando-me atentamente. Digo ''oi'', para elas, ''preciso de ajuda''. E, instantaneamente, Cloé dá um salto e aterrisa na minha barriga, Morgana pula e pousa sobre meus pés, e Engraçadinha entra na minha mala, e fixamente me mira, como se sustentasse alguma atmosfera.
Foi uma experiência inusitada, senti-me cuidada e aconchegada, aquecida com aqueles corpos estrategicamente sobre mim. Adormeci, confiei e senti paz. Ao acordar, no fim da tarde, sentia-me muito melhor. Obrigada, amigas gatas, irmãs de destino!