Há pouco mais de um mês, a população se indignou com as declarações do presidente da Câmara, o deputado federal Severino Cavalcanti, que defendeu a contratação de seus parentes como funcionários do governo federal. Não se fala mais nisso, talvez porque já temos novos escândalos para repercutir no meio político, que chegam rapidamente, via Sedex. Mas nem por isso vamos deixar de falar no nepotismo, que estende seus braços para uma área que nos afeta de forma ainda mais danosa do que na política: sim, a televisão.
Como se sabe, a nossa adorável ''máquina de fazer loucos'' (como definiu Stanislaw Ponte Preta) se transformou em uma máquina de fazer famosos. Qualquer novo nome, ou melhor, um novo nome qualquer sempre será bem-vindo na atual programação da TV aberta, que se alimenta de pratos rápidos. É a tal história das celebridades-miojo, de preparo rápido, para consumo imediato, que não deixará lembranças. Assim, vários programas de entrevistas e fofocas estão a todo tempo precisando falar qualquer coisa de alguém com um mínimo de fama. Vale tudo, inclusive lutadores de vale-tudo.
Mas como não há número suficiente de cantores sertanejos e de pagode, dançarinas de axé music, modelos, ex-namoradas de jogadores de futebol, apresentadores de novos programas e nem de (por incrível que pareça) participantes de reality shows, a TV se escancara para o nepotismo. É filho de alguém de dupla sertaneja? Vamos mostrar cantando! É irmão de apresentador? Dá um quadro de programa para ela! É filha de cantora tentando também fazer carreira? Chama agora mesmo para um debate sobre um assunto desgastado. O pai é ator? Põe o rapaz na novela das seis! Afinal, filho de peixe peixinho é.
Esta semana, esse fenômeno assumiu uma nova dimensão. Foi no já tão criticado programa Superpop, da Rede TV!, apresentado por Luciana Gimenez (que, por sinal, ganhou o emprego por ter ficado famosa gerando um filho de uma celebridade, o stone Mick Jagger). No palco estava a Dona Regina Dirce, mais uma vez reclamando que seu filho, o cantor Latino (que, aliás, lançou para o estrelato Kelly Key, sua mulher na época), não falava mais com ela. Lamentava também que o rapaz, num incrível surto de bom senso, não queria lhe dar a chance de ser cantora. Mas é claro que o Superpop não ia deixar isso barato e abriu espaço para a senhora mostrar seu talento ao público, com play-back, obviamente. Eis aí um incrível caso de nepotismo à revelia! Enquanto Latina Mãe (esse nome artístico seria muito melhor) pulava para a platéia, aparecia uma legenda na tela dizendo mais ou menos assim: ''Você também teria vergonha de sua mãe cantando, como o Latino tem?''.
Ao fim da apresentação, Dona Latina (outro bom nome, não?) chorava com os elogios entusiasmados de um dos convidados, que dizia ser um absurdo uma gravadora ainda não ter chamado aquela senhora para gravar. Câmera em Latynna Mãe (opção para numerologia), que chorava e agradecia a Deus - ''Oh, meu Pai!''. Emoção, drama, lágrimas, filho famoso, play-back: nascia uma estrela! Um momento único na televisão brasileira. Mas único só até o próximo fim de semana, pois toda celebridade tem família...