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Durante nove anos, a série Seinfeld divertiu telespectadores de todo o mundo com histórias politicamente incorretas. Até hoje podemos ver nas reprises do canal Sony o cotidiano de quatro amigos nova-iorquinos que cometem algumas maldades involuntárias ao reagir a situações corriqueiras ou mesmo por apenas fazer comentários sinceros sobre tudo o que os cerca. Era um alívio para os que se sentiam sufocados pela patrulha do politicamente correto. No entanto, em maio de 1998, o último episódio do seriado mostrou os amigos sendo presos por terem negado ajuda a um gordinho que foi assaltado na frente deles, com o agravante de terem debochado da vítima. Na época houve quem apontasse que o grande diferencial da série estava sendo afinal condenado, o que tirava toda a graça da coisa, anulando as conquistas de Seinfeld.

Bem, anos depois outra série despontou e ganhou não apenas fãs, mas seguidoras que olhavam a TV como se mirassem um espelho. Estamos falando de Sex and the city, sobre o cotidiano de quatro amigas que chegam àquela tão temida fase pós-30 sem marido ou relacionamento amoroso estável. A série foi aplaudida por sua visão feminina/feminista de namoros e casos. Mostrava a todos que as mulheres podiam falar sobre sexo de forma tão descarada quanto os homens o fazem no intervalo entre uma pelada e um chope. O resultado foi que muito homem se arriscou a driblar uma ou outra situação lacrimosa vivida pelas moças, só para ver o que elas achavam sobre certos aspectos e costumes masculinos. Tanto que o canal Multishow certa época resolveu exibir depois da série uma reprise do grosseiro e eficaz humorístico No mundo dos machos, baseado em pesquisas que indicavam que eles estavam acompanhando a vida de Carrie Bradshaw e suas amigas.

Na esteira de Sex and the city, outras séries procuraram fisgar outros machos com formatos parecidos. Uma foi The mind of the married man, sobre o que pensam os homens casados. Outra foi a inglesa Manchild, que mostrava senhores divorciados com mais de 50 anos. Não chegaram nem aos bem calçados pés de Sex and the city em termos de sucesso. Afinal, homens casados atormentados com suas fantasias ou cinqüentões enxutos tentando voltar à ativa são meros coadjuvantes no cotidiano de Carrie e, cá entre nós, muito menos divertidos que solteiras liberais, tanto na TV como na vida real.

Muitas mulheres que viam o roteiro da série como uma espécie de substituto para seus diários de adolescentes estavam aprendendo com Sex and the city que não é preciso ser uma esposa ou encontrar a alma gêmea para ser feliz, que a realização pessoal não tem que estar vinculada à felicidade ao lado do príncipe encantado. Uma questão, aliás, que vem sendo apontada por vários estudiosos que analisam a, digamos, Síndrome da Balzaquiana Angustiada. O seriado era uma boa lição para as telespectadoras que sofrem desse mal. Mas eis que, tal como aconteceu em Seinfeld, no episódio final de Sex and the city - que vai ao ar amanhã, no canal Multishow - os ensinamentos foram por água abaixo. Podemos constatar que as quatro amigas terminam felizes, pois estão bem acompanhadas de seus homens. A protagonista, Carrie, ainda pode escolher seu final feliz entre dois mocinhos, ambos ricos e bonitões. No fim das contas, as Carries do mundo inteiro vão continuar achando que suas histórias só chegarão ao fim quando elas estiverem ao lado do bem-amado, de preferência num casamento daqueles que sempre aparecem no último capítulo das novelas.


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[22/AGO/2004]


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