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Pra frente, Brasil


Não é costume nosso ser patriota. Às vezes até se ouve por aí um "Brasil, meu Brasil brasileiro", mas as palavras saem apenas para se rimar com samba e pandeiro. Nada que mexa exatamente com o orgulho de ser daqui. Sentimento assim só aparece de quatro em quatro anos, a cada Copa do Mundo, na frente da TV. A olimpíada está aí e não se vê um muro verde e amarelo. É mais fácil ver bandeirolas de festas juninas do que uma bandeira brasileira. Só somos aquela "corrente pra frente" diante da Seleção. E não serve qualquer torneio regional. Tem que ser Copa do Mundo, para mostrar ao planeta que somos melhores em alguma coisa. É diante da telinha, com narração e replays, que nos sentimos brasileiros, derrotando outras nações com a ginga de nossos mulatos inzoneiros.

Mas não é só a telinha da TV que pode despertar nosso patriotismo de quatro em quatro anos. A tela do computador é capaz disso também, pela internet. Mais especificamente no Orkut, a comunidade virtual onde as pessoas preenchem uma ficha que diz a todos quem são (com direito a foto) e saem marcando seus amigos (ou conhecidos, tanto faz agora). Criada por americanos, a comunidade foi aos poucos sendo dominada por brasileiros, que começaram a espalhar mensagens em português por todo lado. Os americanos ficaram incomodados. E olha que nem estávamos falando alto, tocando tamborim, batucando na mesa, jogando lixo no chão ou olhando para trás para avaliar bundas femininas. O problema é que já estávamos em segundo lugar na lista de membros do Orkut, muito perto dos ianques. Quando alguns começaram a reclamar da nossa presença maciça e propor que só se usasse inglês no Orkut, os brasileiros resolveram se unir como numa Copa. Houve uma convocação geral para mais compatriotas entrarem na rede para passar a frente dos Estados Unidos, o que logo foi conquistado.

E vieram as provocações, como o pedido para que todos se declarassem iraquianos na ficha, só para os americanos verem a bandeirinha do Iraque acima da deles. Não colou, mas já corre outra proposta por aí: que no Dia da Independência, 7 de setembro, todos troquem suas fotos por bandeiras brasileiras, para que o Orkut vire uma aquarela verde e amarela. Não deve colar também, mas a idéia já basta para nos impressionar com o sentimento de patriotismo. Não somos bons só de bola, mas de rede também. Esfregam na cara dos americanos pesquisas mostrando que brasileiros são os que mais navegam tempo na rede. Era o que precisávamos. Como os americanos não estavam nem aí para nossa superioridade no gramado (conseguiram a proeza de serem fãs de três esportes, e nenhum é futebol), mostramos que somos melhores de internet, esporte mundial inventado por eles.

Disso tudo tira-se uma conclusão: brasileiro só é patriota se tiver adversário. Não somos como os americanos, que já põem a mão no peito nos primeiros acordes de hino e fazem cuecas com a própria bandeira. Para termos orgulho do Brasil, precisamos de um inimigo. Isso se comprova também no MV-Brasil, simpático movimento que promove o orgulho nacional com atitudes como o desestímulo ao uso de palavras estrangeiras e a resistência contra.... os Estados Unidos. Em tempos de aversão mundial aos americanos, tudo bem. Mas se Bush for demitido, logo esse sentimento vai acabar e voltaremos a consumir produtos americanos sem sentimento de culpa ou hipocrisia. Para manter vivo nosso patriotismo, precisamos de um novo inimigo. A Argentina não vale, pois além de ser parceira de Mercosul, falar mal de argentino é mais um fetiche do que outra coisa. Opções de inimigos que nos desafiaram não faltam. Quem esses belgas acham que são para estar à nossa frente no consumo de cerveja? E qual é a desses australianos que vestem amarelo na seleção de futebol? E que história é essa de a África do Sul ter mais casos de Aids que nós? E como a Tunísia ousa ter índices mais drásticos de pobreza que a gente? E como todos esses países da América Central pretendem ter criminosos mais treinados e armados? Vamos deixar isso barato? Pra frente, Brasil!


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[18/JUL/2004]


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