Após o Mundial de 2002, escrevi várias vezes que o Brasil tinha tudo para formar uma Seleção espetacular, inesquecível, como as melhores de todos os tempos. Havia uma base pronta do Mundial, um grande número de craques e surgiam outras promessas e possibilidades.
Mas nesses três anos foram só frustrações. O Brasil não tinha feito até o jogo contra o Paraguai uma única grande exibição contra um bom time. A vitória por 3 a 1 contra a Argentina foi devida somente a alguns lances espetaculares do Ronaldinho.
A esperança de ver, com freqüência, um time magistral renasceu em Porto Alegre. O quarteto e mais Zé Roberto e Roberto Carlos deram um show.
Coletivamente, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Robinho me surpreenderam. Os três se movimentaram bastante e descobriram os seus espaços. Ronaldinho Gaúcho atuou mais recuado do que no Barcelona e foi o maestro que faltava ao meio-campo.
Clovis Rossi escreveu que esse quarteto, com Ronaldinho no lugar do Adriano, tem tudo para ser melhor do que o de 70. Acho difícil por causa do Pelé. Fora o rei, os quatro são tão bons quanto foram os melhores jogadores das Copas de 58, 70 e 82. Na verdade, havia em 70 um quinteto. Jairzinho foi um dos maiores atacantes do Brasil.
Semanas atrás, escrevi que Ronaldinho Gaúcho poderia ficar na historia só abaixo de Pelé e Maradona. Recebi dois tipos de contestações. Uma, que esqueci do Garrincha. É verdade. Garrincha era tão diferente que é impossível compará-lo. Outra contestação, que Ronaldinho Gaúcho ficará acima do Maradona. Deixo a resposta para os argentinos.
Após ficar arrepiado com o que vi contra o Paraguai, é hora de ser realista. Não há mais dúvidas sobre a qualidade desse quarteto, mas não se pode fazer uma análise coletiva definitiva por apenas um jogo. É preciso repetir várias vezes essa formação.
Se o Brasil jogar mal hoje e perder, não significa também que não se pode atuar assim contra fortes equipes. Perder para a Argentina é normal com qualquer time.
Parreira tem ainda a opção durante o próximo ano de utilizar duas formações, de acordo com a situação. Uma com o quarteto e outra trocando um dos quatro por um terceiro armador, desde que os três do meio-campo não fiquem muito atrás atuando de volantes, como acontecia.
Mas Parreira não gosta de mudanças táticas durante a partida e de um jogo para outro. As grandes qualidades do técnico são a prudência, o equilíbrio e a repetição. As suas grandes deficiências são o excesso de prudência, de equilíbrio e de repetição.
Será que o Parreira mudou de conceitos? Antes, ele não admitia e ironizava escalar dois meias ofensivos e dois atacantes. O que aconteceu? Não devem ser os ensinamentos do ex-técnico inglês, ''O Pai do Chutão''.
A Argentina trocou o estilo ousado, de marcação por pressão e de velocidade do Bielsa pelo do Pekerman, mais equilibrado e de toque de bola, personificado no futebol técnico e cadenciado do meia Riquelme, que comanda as ações ofensivas.
Talvez a postura atual da Argentina seja mais sensata para vencer um torneio curto como a Copa do Mundo. Mas gosto mais do estilo Bielsa. Fugia da mesmice.
Hoje, em casa, mesmo com o estilo Pekerman, a Argentina deve marcar mais à frente. Isso dificulta para o Brasil. O Paraguai recuou demais e só desarmava próximo da área. Os volantes jogaram livres. Zé Roberto teve espaço para avançar, como gosta e sabe, e até fazer gol de fora da área, o que é raro.
A grande qualidade do futebol argentino é unir a forte marcação com a habilidade. Os argentinos são mais aguerridos e desarmam mais do que os brasileiros. Isso tem sido importante na Libertadores. Porém, entre seleções, só o Brasil tem alguns jogadores espetaculares. Isso é geralmente mais decisivo.
Marketing
O único fato não prazeroso do jogo contra o Paraguai foi a comemoração comercial explícita do Robinho no gol. Esse momento é de uma alegria incontida, e não trabalho para garoto-propaganda. Outros craques já fizeram isso. Robinho entrou para o mundo do marketing e das celebridades. Era inevitável. Não há nada errado nem isso vai obscurecer o seu talento. É apenas uma constatação.