Antes de escrever sobre a partida decisiva de hoje, preciso falar alguma coisa sobre os dois últimos jogos. Contra a Argentina, o Brasil atuou bem, criou mais chances de gol, mas errou nas finalizações.
Daniel Carvalho, um dos melhores ao lado do Dudu Cearense, foi o jogador que mais correu no primeiro tempo contra a Argentina. Na segunda etapa estava exausto porque tinha de marcar no seu campo e chegar à frente. Ele fez um esforço incompatível com as suas características e capacidade física. O ex-técnico do Inter, Murici Ramalho, que conhece muito bem o jogador, disse o mesmo no programa Arena Sportv.
O Chile, empurrado pela torcida, correu demais no primeiro tempo, marcou por pressão, tomou a bola no meio-campo, jogou e não deixou o Brasil jogar. Porém, não dá pra fazer isso os dois tempos, principalmente quando o time não consegue vantagem no placar na fase inicial.
No início do segundo tempo, o Brasil fez novamente um gol de bola parada. O Chile, cansado, trocou um lateral por um atacante, foi todo à frente, se desesperou e o Brasil, mesmo com um jogador a menos, se posicionou bem na defesa e no contra-ataque e decidiu o jogo.
O Brasil não ganhou porque teve mais raça na segunda etapa. O time jogou com garra os dois tempos. As características da partida facilitaram a vitória. É obvio que para fazer bem qualquer coisa é preciso ter entusiasmo, mas dizer que um time ganhou ou perdeu por causa de raça tornou-se uma grosseira simplificação no futebol brasileiro.
Por causa de um jogador a menos, Robinho teve mais espaço no segundo tempo. Ele recuou, marcou, armou as jogadas e apareceu na frente. Utilizou bem a sua habilidade, leveza e velocidade. Ele, Dudu Cearense e Gomes, apesar do erro de não formar barreira no gol do Chile, foram os principais destaques.
Ricardo Gomes demorou cinco jogos para escalar os melhores contra a Argentina e, acertadamente, repetiu a formação. Ele tem apenas um jogo para descobrir que Robinho, para ter mais espaço, deveria trocar de posição, ou pelo menos alternar com Daniel Carvalho. Mas isso não é o mais importante, e sim a qualidade dos jogadores.
Melhor ainda foi ganhar com dois gols de diferença. Hoje o Brasil joga pelo empate contra o Paraguai. A seleção brasileira é a grande favorita.
Medo de perder
A ansiedade natural, normal, é a reação emocional de um individuo ao perceber uma situação ameaçadora, um perigo real, objetivo. Todos os atletas se alteram nas decisões. Uns mais do que outros. O perigo real é o medo da derrota, do fracasso.
Até certos limites, a ansiedade é benéfica. Ela estimula a produção de substâncias químicas que podem atingir altos níveis. É o doping psicológico. A tensão aumenta a capacidade física, o atleta corre mais, fica mais alerta e com mais coragem.
O atleta sabe que numa partida decisiva é muito importante os primeiros 15 minutos. O jogador entra em campo nervoso, mas aos poucos relaxa. Se um velocista de 100 metros estiver muito tenso, perde a corrida na largada.
Com o tempo, a maioria dos atletas aprende a utilizar a ansiedade para melhorar o rendimento. Quanto mais tenso, atuava melhor. Imagino que aconteça o mesmo com a maior parte dos jogadores.
Um dos perigos da excessiva ansiedade é a violência. O jogador perde o limite entre a agressividade e a agressão. Numa fração de segundos, atinge o adversário em vez da bola. Foi o que fez o Maicon contra o Chile.
O equilíbrio emocional é muito importante no resultado de uma partida. Muitos treinadores ainda não perceberam essa evidência.
Em qualquer atividade, se a ansiedade for incontrolável antes de uma situação tensa, de um jogo decisivo, o corpo deixa de obedecer ao comando do cérebro e o profissional diminui a capacidade técnica. O palestrante gagueja e não consegue falar diante do público. O atacante entra livre diante do goleiro, fecha os olhos e chuta com o corpo desequilibrado, para fora. Aí diz que foi azar.
Outra saída para a extrema ansiedade é não arriscar, fugir da responsabilidade. O jogador pipoca, como se diz na gíria do futebol. Como é muito doloroso assumir essa fraqueza, às vezes o medo se transfere ao corpo, que adoece.
Nada disso é raro no esporte e na vida. É humano. Deve acontecer com mais freqüência do que se pensa ou se vê. O medo não se mostra, se esconde.