Abel, novo e respeitado técnico do Flamengo, foi infeliz ao dizer que Felipe é melhor do que o Alex, do Cruzeiro. Felipe parece craque. Alex é craque. A diferença é grande.
Como muitas pessoas, Abel confunde habilidade com talento. Felipe é um excelente jogador, tem muita intimidade com a bola, dribla melhor do que o Alex em pequenos espaços, mas não tem a técnica (passe, cruzamento, finalização), a criatividade (fantasia e antevisão da jogada), o raciocínio rápido, a ampla visão do jogo e nem a disciplina, determinação e participação coletiva do Alex. O talento é a reunião de todas essas qualidades.
Os dois jogam também em posições diferentes. Alex atua do meio para frente. Está sempre próximo da área para dar o passe decisivo ou fazer o gol. Felipe inicia as jogadas na sua intermediária e chega pouco à frente. Se Felipe fosse hoje o jogador que imaginei que seria no início de sua carreira, ele estaria no lugar do Zé Roberto, na Seleção Brasileira.
Para ser um craque como Alex, Felipe deveria ter a humildade em reconhecer os seus defeitos, treinar muito para corrigi-los, se preparar melhor fisicamente e ter mais disciplina, determinação e ambição.
Ao dizer que Felipe é melhor do que Alex, talvez Abel tenha tido a intenção de aumentar a auto-estima do meia do Flamengo. É outro engano. Deveria fazer o contrário. Felipe já se acha melhor do que é. Centraliza demais as jogadas, quer a bola sempre no pé e ocupa uma posição restrita no campo.
Alex, ao contrário do Felipe, antes de jogar no Cruzeiro, tinha baixa auto-estima. Não assumia a responsabilidade de ser um craque, embora já fosse. Contentava-se em ser um excelente coadjuvante. No Cruzeiro, ele é diferente. Entra em todas as partidas para ser a estrela do espetáculo.
Receio (não estou afirmando que isso vai acontecer) que a presença do Rivaldo, titular da Seleção e um dos grandes jogadores da história do futebol brasileiro, iniba um pouco o Alex. Ao dividir a responsabilidade de ser o craque do time, temo que o Alex perca a confiança e a obsessão em decidir os jogos, como no ano passado.
Essa é apenas uma preocupação, uma hipótese, uma divagação. Não dá para prever os fatos. Mas Luxemburgo precisa ficar atento.
Formação do jogador
Certamente, vão aparecer bons jogadores, e talvez pelo menos um craque, nesta Copa São Paulo de Juniores. Apesar da falta de condições de parte das pessoas que orientam esses garotos, da diminuição dos campos amadores e de pelada, da massificação das escolinhas, o Brasil continua sendo uma fábrica de craques.
Isso acontece, principalmente, porque o país é muito grande, os meninos sonham em ser craques, têm poucas chances de estudar e trabalhar ou deixam de fazer essas coisas para jogar bola. Será que se o Brasil fosse mais desenvolvido socialmente e os meninos freqüentassem as escolas durante todo o dia, haveria tantos bons jogadores?
Esses jovens sonham com o sucesso, a fama e o dinheiro. Poucos realizarão os seus desejos. A maioria não vai atuar num grande time e nem será um profissional. Alguns dos que têm muito talento vão se perder no meio do caminho. Não saberão conviver com a fama, os elogios e as críticas. Isso é mais difícil do que fazer um belíssimo gol.
Há jogadores que se destacam nas categorias de base por causa de suas privilegiadas condições físicas. Na equipe principal, perdem essa vantagem. Outros com talento, mas frágeis fisicamente, têm grandes dificuldades quando vão para o time principal. Será que o habilidoso e pequeno Elton da equipe de juniores do Corinthians será um grande jogador?
Geralmente os grandes jogadores mostram que são excepcionais já nas categorias de base, como os dois Ronaldinhos e Alex. Outros surpreendem, Kaká não parecia que se tornaria um craque. A sua excepcional condição física, bastante desenvolvida no São Paulo, ajudou muito no seu sucesso. Rivaldo só se tornou um craque após vários anos de atividade profissional.
Os garotos dos grandes clubes desfrutam de uma boa estrutura profissional para desenvolverem seus talentos. Porém, isso não basta e nem treinar muito. Os técnicos precisam ensinar e orientar os meninos.