É o primeiro reveillon que passo aqui, no
Jornal do Brasil, no alto da página, à esquerda. Até agora, foram oito meses de artigos semanais. Não sei bem por que escrevo. Escrevo sempre aos sábados, quando tenho tempo de fazer o que gosto. Corro o risco de falar sobre coisas que na quarta-feira já perderam a importância face às novidades de segunda e terça. Pode ser que escreva por raiva, vaidade ou simplesmente pela necessidade de expressar meu ponto de vista. Recebo
e-mails de leitores, alguns muito agressivos, e, na rapidez das comunicações eletrônicas, acabo respondendo no mesmo tom. Muitos leitores escrevem concordando com o ponto de vista ou elogiam o caráter didático. Às vezes, concordam com o que não escrevi ou até com aquilo de que discordo.
A experiência de escrever, falar, ler e ouvir é sempre uma surpresa. Quem for a Lisboa, vai descobrir que existe um pequeno espaço de tempo entre o som das palavras que ouvimos e a apreensão do significado. Os portugueses pronunciam as vogais muito rapidamente, falam os esses como os cariocas, e tudo em ritmo diferente dos brasileiros. Parece poesia - palavras novas com sentidos antigos, e palavras antigas com sentidos novos. Alguns portugueses dizem o mesmo dos brasileiros.
Entendemo-nos tão bem quanto eu e os leitores. Com a vantagem de ficarmos maravilhados uns com a língua falada pelos outros. Na mesa, entre amigos portugueses, ouvi longa explicação sobre a família real portuguesa e o pretendente à Coroa. Perguntei por que D. Carlos era o pretendente. O amigo português sorriu, surpreso com a pergunta e antecipando que a resposta também me surpreenderia. Ora, D. Carlos é o pretendente porque pretende ser o herdeiro.
O evento é comum entre brasileiros e portugueses. A livraria portuguesa não fecha porque não abre. A estrada não vai a lugar nenhum, pois está onde sempre esteve, ligando o Porto a Lisboa. Brasileiros colecionam como piadas a lógica que gruda com força cada palavra a um significado, como querem os positivistas.
Não sei se acontece a mesma coisa entre americanos e ingleses. Mas já se disse que são dois povos separados pela mesma língua.
Em poesia, todos nos entendemos. Quando falamos como cientistas, tudo fica difícil - e gozado. É como se falássemos pelo rádio. O chiado e as interferências não impedem o diálogo entre o piloto e a torre de controle.
Quando, entretanto, se pretende transmitir uma palavra específica, a comunicação é difícil e há necessidade de usar palavras no lugar de letras - alfa para A, beta para B, elefante para E, vitória para V e assim por diante.
Começo o ano desconfiado - será que nos entendemos? O hebraico no Torah não tem vogais. Requer a sabedoria dos rabinos para ser interpretado. Até há pouco, os católicos não podiam ler o Evangelho sem o auxílio do sacerdote.
Será que vale a pena escrever ou o que está escrito admite qualquer interpretação?
No final de 2001, tenho a sensação, mais uma vez, de que toda essa conversa e escrevinhação de livros, jornais, telejornais, discursos e poesias parece conversa de lobo com cordeiro. O lobo acusa o cordeiro de sujar a água que o lobo bebe. O cordeiro responde, como cordeiro, que não pode sujar a água do lobo, pois está bebendo na parte mais baixa do rio. O lobo come o cordeiro.
Não tenho simpatia por cordeiros. Falam e escrevem demais e não percebem o que está realmente acontecendo.
João Sayad é secretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo