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Deixem o chiclete grudar em mim


Cientistas da Universidade de Bristol, na Inglaterra, acabam de inventar o chiclete que não gruda. Parece adequado para uma universidade com nome de detergente. Ou para um país que, à luz dos últimos acontecimentos, está disposto a ''limpar'' suas ruas a qualquer custo. Uma assepsia em todos os sentidos. A descoberta científica atende a apelos de autoridades sanitárias inglesas (não necessariamente da Scotland Yard) que dizem gastar milhões de euros raspando chicletes em ruas de cidades como Liverpool. Uma nota preta, principalmente considerando o preço dos chicletes e o salário pago aos lixeiros. E que não é suficiente para jogar todo o lixo para debaixo do tapete. O Coldplay, por exemplo, acaba de lançar um CD grudento na praça. E mesmo Victoria Beckham, mulher do jogador do Real Madrid, ameaça fazer o mesmo até o fim do ano.

Na verdade, os cientistas ingleses - não tenho nada contra os ingleses, acho até que, ao contrário dos chicletes, costumam ficar melhores à medida que nos acostumamos a eles - agem como alguns de seus coleguinhas chefes de cozinha. Uma adaptação cultural. Em alguns restaurantes indianos de Londres, é comum a comida ser oferecida com ou sem curry. Ora bulhufas, comida indiana sem curry não é comida indiana! E chiclete sem goma não é chiclete. É, no máximo, bala Juquinha.

Mais que uma ofensa à cultura pop - que tem no chiclete um de seus ícones, ao lado do James Dean, da Madonna, das latinhas de sopa do Warhol e do turbante da Carmen Miranda -, a eliminação da goma do chiclete é uma ofensa à vulgaridade da língua. Vulgaridade boa. Chiclete, usado como substituto semântico de algo que gruda na gente, é um dos clichês mais caros ao cronista sem idéias. Chiclete é um grude que jamais nos abandona e do qual não conseguimos nos desvencilhar. E - posso assegurar - nem sempre queremos.

As músicas do Jack Johnson, as festas no apê do Latino, as novelas do Gilberto Braga, os jogos de futebol na TV, as meninas que insistem em ouvir ''eu te amo'' a cada momento. Tudo chiclete. O que os caras da universidade inglesa fizeram foi inventar um reagente à goma, um polímero revolucionário que nos impede de deixar nossa marca cravada debaixo da poltrona do cinema. Deve ser o que se espalhou em Brasília e tem deixado o PMDB com um estranho desapego ao poder. Mas insuficiente para nos desatarraxar daquilo que realmente nos faz feliz. Ou não teríamos o prazer de repetir pela milésima vez o ''eu te amo'' para quem a gente realmente ama.

Por isso, ao contrário de Londres ou de qualquer cidadezinha inglesa, não creio existir polímero capaz de me desgrudar do Rio de Janeiro. Nem balde de água fria. Nem ação de polícia. Nem traficantes que cravam bala até em defunto no cemitério. O Rio tem uma cola, um grude qualquer. Que deve vir do visco da jaca caída nos caminhos de pedra do Parque Lage. Ou do vatapá servido junto ao acarajé na escadaria do Metrô da São Clemente. Ou do angu do Gomes. Ou da tapioca com manteiga e queijo ralado na Feira de São Cristóvão. Ou do quebra-queixo no tabuleiro da Matilde, ali junto do camelódromo do Centro. Ou do molho do cachorro-quente do uruguaio no Posto Nove. Ou a mozarela da pizza do Hipódromo. Ou daquela saliva comprida, aquele fiapo que prolonga o beijo na minha garota todas as manhãs. Tudo grude do bom. Ao contrário dos cientistas ingleses, acho perfeitamente possível viver numa cidade que se cola, como chiclete, na sola das minhas havaianas.


Não é por nada não, mas se é para gastar R$ 2 milhões com mulher pelada, aconselho à Playboy a apostar suas fichas na Renilda, a mulher do homem da mala. Ao contrário da secretária, que posa de boazinha da história, Renilda tem pinta de vilã. E, desde Branca de Neve, a gente sabe que as vilãs são muito mais interessantes.


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[28/JUL/2005]


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