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Brasil, a República dos Três Pontinhos


A revista Veja não gosta das putas. Não exatamente da mais antiga das profissões, mas da palavrinha que a designa. Puta. Está lá - ou não está, vá lá - na página 125 da última edição, na lista dos livros mais vendidos: ''4º lugar - Memória de minhas p... tristes, de Gabriel García Márquez''. Excesso de pudor, talvez, para um veículo de comunicação que traz coisas bem mais cabeludas em outras de suas páginas. Ou uma significativa contradição. Num país em que as coisas mais importantes, as respostas mais esperadas, viraram reticências envergonhadas, as putas de García Márquez são o símbolo perfeito. O Brasil virou a República dos Três Pontinhos.

Putas. A tradução do companheiro de Caderno B Eric Nepomuceno para o título do livro é de uma exatidão gentil. Puta, roubada do latim putta, não passa de uma contração amável para prostituta, palavrinha que, ao que consta, aparece mais de uma dúzia de vezes no velho e no novo testamento. Isso sem falar no Alcorão. Um palavrão menor, um apelido até. O Aurélio, entre as dezenas de significados para a palavra, indica ''expor-se à venda, entregar-se à vida de pública devassidão, corromper-se''. Nada que a Veja não escreva pelo menos 50 vezes em cada número. Sem que, a nenhuma delas, tenha dado o significado poético buscado pelo escritor colombiano.

Palavrão, na verdade, está na moda. Como as saias com bordados na barra, as pulseirinhas do ciclista americano ou as camisetas com motivos religiosos. Há excesso de palavrões. Em tudo. Outro dia, o Saia justa, do GNT, dedicou dois blocos ao assunto. Palavrões. E as quatro meninas - é verdade que Márcia Tiburi e Mônica Waldvogel enrubesciam romanticamente a cada vez que pronunciavam merda, por exemplo - exageraram nos termos. Palavrão virou um desabafo. Mais: um instrumento feminino em busca da tal igualdade entre os sexos. Bobagem. Não devem as meninas buscar igualdade neste mundo do baixo calão. É só prestar atenção que, no emaranhado em que se meteu o governo, quase não há mulheres no lado podre do poder. As mulheres, por enquanto, ainda não merecem virar três pontinhos em páginas de revista.

No mais, fecho com a Veja: também não aturo baixaria. Por isso, imagino uma reportagem toda escrita sob a batuta do semanticamente correto. Um texto inteirinho sem nomes feios.

''Em depoimento à CPI dos Correios, o publicitário (...) rebateu as acusações do deputado petebista (...) e disse que o repasse da verba atendeu a pedido do tesoureiro (...) e que não se lembra da participação do ex-presidente do partido, (...), ou do ex-ministro da Casa Civil, (...), no negócio. Enquanto isso, o presidente (...)''

Bem, ao Lula cabe ainda definir se é o et cetera. Ou se é o tal.


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[21/JUL/2005]


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