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A diferença que um nome faz


Não entrei, mas dizem que os banheiros femininos do Unibanco Arteplex - conjunto de salas de cinema que abre hoje na Praia de Botafogo - têm chão espelhado. Do tipo que, olhando direitinho, dá pra ver a calcinha das meninas de saia. Não duvido. Tudo no cinema - possivelmente as calcinhas das meninas que andam por ali também - é lindo. Tinindo. A galeria iluminada, as fotos do Rio antigo, a livraria, o bar, o som THX na sala 6, a proposta de misturar filmes de arte com cinemão. Tudo nota 10. Ou 9,5, vá lá. Impliquei com o nome. Na verdade, impliquei com a ausência de nomes. Arteplex 1,2,3,4,5 e 6. Não dá. Senti falta do Coral e do Scala.

Para quem não sabe ou não lembra, Coral e Scala eram os nomes dos cinemas que existiam ali. Tudo bem, ninguém sabia bem qual era o Coral e qual era o Scala. Fora os que os confundiam com o Ópera, cem metros adiante na rua. Eu nunca soube. Mas arriscava. Na minha cabeça, Coral era o da esquerda de quem olhava para a fachada. Scala era o outro. Posso estar errado. Não importa. Importa é que Coral e Scala eram nomes. E não números.

Dou valor aos nomes. Tenho um irmão gêmeo. Ricardo. Algumas pessoas nos confundem. Muitas pessoas, na verdade. Me chamam de Ricardo e a ele de Renato. Aos dois de Renatoricardo. Ou de Ricardorenato. Ou de Tico e Teco, Plic e Ploc, Xerox e Fotocópia, Quinzinho e João Vitor. Isso ferra com a personalidade da gente, dá uma baita crise de identidade. Ainda assim, prefiro ser chamado de Faísca (lembram do Faísca, um corvo safado parceiro do Fumaça?) a ser identificado por um número qualquer. Ninguém quer ser o número 2.

Despenca sobre os cinemas a mesma praga que acomete alguns botequins: a falta de personalidade. Alguns deles são até muito bons, mas jamais serão o ''nosso'' botequim. Tem gente que acha que a personalidade pode estar na qualidade do pastel, nos quadros das paredes ou no tamanho da serpentina do chope. Não está. A personalidade pode estar no garçom da casa, no banheiro, nas mesinhas de madeira, nas pessoas que freqüentam o lugar. Às vezes estão até no pastel, no quadro e na serpentina. Mas, antes de tudo, nosso botequim tem que ser único. Com os cinemas também é mais ou menos assim.

No Coral, um dia eu assisti a As loucas aventuras de Rabbi Jacob, com Louis de Funès. Bom paca. No Scala eu vi Trama macabra, certamente um dos piores filmes de Alfred Hitchcock. Ou o inverso. Dane-se. Coral e Scala nunca foram bons cinemas, mas eu não percebia isso. Eram meus cinemas. Nas verdade, já nasceram meio poeiras. Na fase final - quando ostentavam o ''Sempre um bom filme'' na fachada - ficaram ainda piores. Eram um pornô metido a besta. Quando a prefeitura proibiu exibição de pornografia perto de escolas, tiveram que se adaptar aos novos tempos. O recurso foi exibir filmes de seu velho acervo de arte, da Gaumont, para um público muito mais interessado no que se passava na platéia. E - a frase na fachada não era tão mentirosa assim - havia sempre um bom filme por ali.

Como Contos imorais, de Walerian Borowczyc, um pornô-cabeça em que Paloma Picasso tomava um banho de sangue de meninas virgens e uma outra atriz (me esqueci quem é) fazia sexo com uma feira livre completa, da berinjela ao pepino. Passaram por ali também Detetive e Salve-se quem puder - A vida, do Godard, Almoço frio, do Bertrand Blier, e O sol por testemunha, com Alan Delon no papel de Ripley. Muitos outros. Filmes que poderiam muito bem ocupar a porção arte do Arteplex. Fica a sugestão, Adhemar.


De qualquer forma, o Unibanco Arteplex já diz a que veio com a exibição de Bendito fruto, de Sergio Goldenberg. O filme de Sergio, além de ser muito bom, aponta interessantes caminhos para o cinema nacional. É o verdadeiro filme classe média. Em todos os sentidos.


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[19/MAI/2005]


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