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E a classe média acabou adotando o funk


''Existe o Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro e o Rio de Janeiro. Três cidades que ocupam o mesmo espaço geográfico, mas raramente o mesmo espaço simbólico.'' Com essa sentença curta Silvio Essinger abre seu Batidão - Uma história do funk, lançado pela editora Record. Eu sei que na semana passada jurei de pé junto que não colocaria mais o bedelho na questão do Rio de Janeiro. Menti. Acontece de a gente mentir, às vezes. Ou de mudar de opinião, vá lá, o que quase sempre é louvável. E a causa é nobre. O livro de Essinger diz mais sobre o Rio de Janeiro do que muito tratado sociológico. Diz mais, por exemplo, que o recém-lançado Cabeça de porco, do trio Celso Athayde, MV Bill e Luiz Eduardo Soares. E é bem mais divertido de ser lido.

Silvio faz reportagem. O autor não está ali simplesmente para dizer que o funk é legal. Isso gente como Regina Casé, Hermano Vianna, Caetano Veloso e Fernanda Abreu já disse. Fernanda, podem crer, é bem mais bonita que Silvio. Mas não é tão convincente. Ou não tem a mesma apuração. Batidão quer contar história. O livro vai até o início da década de 70 para remontar um movimento que cresceu à revelia da mídia, das grandes gravadoras, do jabá dos rádios e das emissoras de televisão. Que pode ser encontrado em qualquer rua dos subúrbios, na Baixada, nos clubes populares, nos morros da Zona Sul, nas bancas de CD pirata no Centro. Democrático. O livro nos leva a compreender que movimento musical não é, necessariamente, um punhado de garotas com piercing no umbigo dançando em trenzinho. Uma compreensão incapaz, no entanto, de abafar uma verdade mais retumbante que o barulho produzido por qualquer bonde do tigrão: o funk é insuportável.

É engraçado, é bom de dançar, é importante arma de manifestação política, pode ser até a base de uma revolução musical. Mas é insuportável. Vai ouvir Eu só quero ser feliz (de Cidinho e Doca) na seca pra ver o que é bom pra tosse. Ou experimente botar Tati Quebra Barraco no CD de seu carro pra ver se o negócio não fica descontrolado. Ou, mais que tudo, tente passar um sábado à noite ao lado de um baile funk sem pedir arrego. Impossível. O melhor, talvez, seja mesmo aderir ao negócio. E dizer que o funk é legal. Foi mais ou menos o que parte da classe média carioca acabou fazendo.

Acontece com o funk o que já aconteceu com o angu do Gomes, com a geral do Maracanã, com as liquidações no Saara, com os filmes do Zé do Caixão e com o piscinão de Ramos. De vez em quando a classe média, como que para expiar culpas, elege símbolos para as boas coisas da vida que - façam-me o favor - não correspondem à realidade. Ou os caras nunca comeram angu do Gomes, nunca pisaram na geral do Maracanã, jamais se apertaram no calor do Saara, não assistiram a Delírios de um anormal e, na boa, não passaram um domingo na praia de Ramos. Ou fizeram isso tudo apenas uma vez na vida. De onda. Para, no fundo, ter certeza que o McDonald's, a arquibancada do Maracanã, as comprinhas no Fórum de Ipanema, o cinema do Walter Salles e a praia no Posto Nove são infinitamente melhores.

Nada disso, no entanto, tira a importância do livro de Essinger. Ele cavuca as raízes do movimento e desencava nomes como Filó, um dos fundadores da escola-de-samba Quilombo e que usava o funk como munição para seu discurso black power. Lembra também de Big Boy e Missiê Limá que eu, um dia, vi discotecar no Clube Olímpico em Copacabana. Tira o chapéu para o Marlboro. Lista as variantes do funk - do melody aos proibidões - e junta os cacos de uma cidade despedaçada de amor. Sugere que, apesar de tudo, o funk estará pra sempre entre nós. Como uma marca. Mais ou menos como a calça da Gang, aquela que deixa o bumbum mais empinado e as garotas mais felizes. Já terá valido a pena.

Essa polêmica em torno da atuação da Débora Secco em América está desviando a atenção da principal questão da novela: o que é, afinal, aquele cabelo do Edson Celulari?


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[17/ABR/2005]


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