Corre por aí uma versão de que os cientistas, há muito tempo, já haviam descoberto as tais diferenças entre o cromossomo X dos homens e o X das mulheres. Mas, precavidos, tinham guardado a história numa caixa de sapatos. Faltava marketing. É difícil vender uma idéia, mesmo uma grande idéia, usando palavras duras como cromossomo, citosina, hemoglobiruna, genoma ou DNA. Ácido desoxirribonucléico não dá primeira página. A não ser que a Luana Piovani esteja disposta a negociar o dela. A questão então foi entregue aos publicitários dos grandes laboratórios que, ao contrário dos biólogos, pensavam em termos práticos. Após alguns testes de simulação - como, por exemplo, colocar homens e mulheres trancados num quarto ouvindo o último CD da Bjork até o primeiro pedir penico - concluíram que a maior diferença entre os dois sexos estava na capacidade que as mulheres possuem de resistir ao sofrimento. E foi nesse momento que alguém lembrou da cera quente.
A depilação por cera quente - na verdade uma invenção masculina voltada para a vaidade dos antigos faraós - coloca o pingo nos ypslones e crava o X definitivo na mais antiga das questões: a mulher é melhor que a gente. Mais que isso, o ato de arrancar pelinhos do corpo num único puxão derruba dogmas religiosos e reforça duas das teses mais caras à ciência moderna: a da evolução da espécie e a da seleção natural. A capacidade de adaptação ao meio - aí incluídos os salões de cabeleireiro e todos os doloridos rituais de busca da beleza - dá à mulher a supremacia entre os seres vivos. E a faz ir adiante. Quem sobrevive àquilo está apto a enfrentar as conseqüências do efeito estufa, a bagunça nos hospitais do Rio de Janeiro e o desafio de ver Caio e Ramon jogando ao mesmo tempo no seu time. Cera quente dói à beça. Falo com o conhecimento de quem, outro dia mesmo, arrancou um bandeide do meio da canela.
É possível que entre os cientistas que pesquisavam o código genético dos seres humanos houvesse pelo menos um com a canela depilada por bandeide. Ou talvez fossem todos mulheres com as virilhas modeladas pelo brazilian bikini wax. O empirismo - principalmente quando associado ao trauma e ao prazer - é a base da ciência, além de jogar a favor das grandes descobertas da humanidade. A maçã de Newton, a pipa de Benjamim Franklin, a folha seca do Didi e o bolinho de aipim com camarão do Bracarense nasceram assim. Já as mutações genéticas e a evolução animal necessitam de séculos para comprovação. É um processo lento, repleto de achados insignificantes e chutes. Muitos chutes. Só a sorte, ou o acaso, pode abreviar isso. Mas, em compensação, as novidades têm efeito devastador.
Por isso, não é de estranhar que a genética derrube regras consideradas imbatíveis da gramática e da álgebra. X não é igual a X. Talvez tenha sido assim há muitos anos, no princípio de tudo. Agora não. Agora não há mais equação matemática para nos dar respaldo. Não há x é igual a menos b mais ou menos raiz quadrada de b ao quadrado menos 4ac sobre 2a. Todo o esforço gasto para decorar a fórmula de Bhaskara, as noites sem dormir antes da prova e a inveja dos caras que não estudavam e passavam assim mesmo, foram por água abaixo. Deveria ter ido mais ao cinema. Ou corrido mais atrás das garotas.
X não é igual a X, cacilda, uma demolição de valores que só a constatação de que o X da mulher é um pouco mais complexo que o nosso é capaz de confortar. E pensar que durante muito tempo as feministas queimaram sutiãs em busca de igualdade. Pensaram pequeno. Camile Paglia é que estava certa. E Darwin também. É a evolução. O mundo - e a vitória de Jean no Big Brother é apenas mais uma das provas disso - caminha para o feminino. O metrossexual é, sem dúvida, o homem do futuro. E o futuro, garças a Deus, é mulher.
Mas tudo isso pode ser revisto. Diante da imagem da Camila Pitanga, por exemplo, é bem possível que parte dos cientistas joguem a toalha e passem a crer na criação divina.