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Muito além da Taprobana de Camões


Por conta de uma coluna publicada há algumas semanas, fui convidado para participar de um programa de rádio. Um programa literário. O negócio era tentar explicar como o início de um livro pode se assemelhar ao início de um namoro. Ou o que vale mais: uma boa frase de abertura ou um bom beijo. Mais ou menos isso. Topei. Como o programa tem um perfil educativo, pediram que eu separasse exemplos na língua portuguesa. Coisa fácil. Saquei das estantes Jorge Amado, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Caio Fernando de Abreu e Paulo Coelho. Quis tirar onda, também. Separei Os Lusíadas. Um erro. Camões ferrou comigo.

As armas e os barões assinalados/ Que da ocidental praia Lusitana/ Por mares nunca de antes navegados/passaram ainda além da Taprobana.

Como o programa seria gravado por telefone, escrevi os primeiros versos do livro na tela do meu computador, com cuidado especial na palavra Taprobana, escrita em fonte 18. Algo me dizia que não iria além da Taprobana. Quando comecei a declamar a longa viagem do navegador português, a palavrinha atropelava as outras como se tivesse pressa de sair da minha boca. Não é uma palavra fácil. Taprobana, taprobana. Me senti como no dia em que, numa sala do Ibeu assisti a meu irmão tentar, inutilmente, ler um texto que começava com The first railroad in the world. Parecia um sapo coaxando. Um fiasco presenciado por um bando de garotinhos que já tinham ido pelo menos três vezes à Disney e pronunciavam railroad com a intimidade de quem diz Pato Donald. Comigo não foi muito diferente. Mesmo tendo apenas uma atônita repórter como platéia, a Taprobana saiu da minha boca com a fluência de um tigre dois tigres três tigres.

Não era a primeira vez que Taprobana emperrava minha vida. Na época da faculdade, freqüentei uma oficina literária que, durante um mês inteiro, estudou Os Lusíadas. Opção nossa, diga-se. Taprobana sempre foi o marco da turma. Ir além de Taprobana era mais ou menos como estar pra lá de Marrakesh. Ou pra lá de Bagdá. Um salvo-conduto que significaria domínio da língua ou insanidade completa. Eu me enquadrava mais na segunda opção. Muitas vezes me perguntava o que fazia ali, tentando decifrar a alma viajante de Camões, enquanto alguns de meus melhores camaradas estavam em outra turma, estudando poesia contemporânea. Lá, as garotas usavam saia curta, óculos de aro vermelho, sandálias havaianas, tinham sardas no nariz e liam seus próprios poemas enquanto faziam charme enrolando o cabelo na ponta da caneta Bic. As meninas adoravam Paulo Leminski. E amavam Ana Cristina Cesar.

Olho muito tempo o corpo de um poema/ até perder de vista o que não seja corpo/ e sentir separado dentre os dentes/ um filete de sangue nas gengivas

Ana Cristina Cesar ajudava um bocado na hora de impressionar garotas. É possível que exista, mas não conheço ninguém que tenha arrumado mulher com Camões. Camões normalmente fala de mundos exclusivamente masculinos, ainda que haja gente que estranhe sua fixação por marinheiros e capitães. Há amor, claro, mas falta sexo em Camões. Tínhamos uns 18 anos, era difícil enxergar sexo entre tormentas, aurora boreal e taprobanas. As garotas queriam ouvir coisas mais diretas. Como Ana C, por exemplo. Ou. Bukowski.

E ela entra/ com o cabelo nos rolinhos/ e um robe de seda/ estampado de coelho e passarinho/ e ela trouxe a sua própria garrafa/ à qual gloriosamente acrescento/ 2 copos.

Era mais ou menos isso que eu queria ter dito no programa da rádio. Não o poema do Bukowski, mas que um bom começo de livro pode valer por um bom beijo. Impressiona bem. Mas não arrisque um livro qualquer. Seja sensato. Prefira os que tenham gente de verdade, garotas com rolinhos no cabelo, suor, sangue nas gengivas, sardas no nariz, desespero e sonho. Se, por uma desgraça, só tiver Camões em suas mãos, não tente ir além da taprobana. Prefira o beijo.

P.S.: Taprobana era o nome dado pelos portugueses à ilha que mais tarde viria a se chamar Ceilão e hoje em dia atende pelo nome de Sri Lanka. Geograficamente falando, Taprobana é, portanto, pra lá de Marrakesh e pra lá de Bagdá.


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[20/MAR/2005]


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