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Julgando o livro pelo começo


''Era só fome o que eu sentia, fome. Uma fome horrível, que poderia chamar de carência, necessidade, impotência, frustração, vazio, a qual me obcecava, roendo-me, e que logo iria me engolir''. É com essa sentença curta que a francesa Lolita Pille inicia seu segundo romance, Bubble gum. É um bom início. Um início de livro escrito na medida para o título que recebeu. Como um chiclete, o estilo de Lolita gruda no leitor de início, mas perde o gosto rapidamente. Era mais ou menos o que acontecia com seu romance de estréia, Hell - Paris 75016. Só que aquele tinha sido escrito por uma menina de 18 anos (a foto na contracapa mostrava uma garota de sardas adolescentes que me deixava imaginando como Clarice Lispector teria sido com a mesma idade) e tinha um início mais impactante: ''Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie; uma sacana do 16ème, o melhor bairro de Paris, e me visto melhor que a sua mulher, ou a sua mãe''.

Sou fissurado por início de livros. Em minhas investidas nas livrarias, passo um bom tempo abrindo livros aleatoriamente, procurando um início ideal. Anoto alguns, em pedaços de papel tirados do bolso, recibos de cartão de crédito. Nem sempre compro os livros depois. Alguns atendentes me detestam por isso. Danem-se. É meu jeito de pensar romanticamente o mundo literário. Começo de livro é igual a começo de namoro, algo que vai te pegar pelo pé e - Deus há de ser camarada - lhe proporcionar um longo tempo de prazer. Muito do que uma garota tem a oferecer está resumido ali, no jeito que sorri, na saia florida que escolheu no armário, no esmalte que passou nas unhas dos pés, nas palavras que escolheu para nosso primeiro contato: ''Não me leve a mal, não, mas acho que seu zíper está aberto''. O amor - o amor verdadeiro - perdoa a crueldade dos primeiros encontros, mas não tolera a falsidade. Por isso desisti de Lolita Pille. A menina tem boas frases (''Se o dinheiro não compra a felicidade, então a felicidade não existe'', está lá em seu primeiro livro), mas eu não sei se gostaria de me apaixonar por ela. Lolita engana a gente.

Não está sozinha, porém. James Joyce, por exemplo, pode ser considerado um traidor, ainda que um traidor com inegável talento. Retrato de um artista quando jovem, certamente seu romance mais palatável, começava assim: ''Certa vez - e que linda vez isso foi! - , vinha uma vaquinha pela estrada abaixo, fazendo muu!'' Um disfarce, uma piada de um irlandês cínico. Dali para frente, sumiriam das páginas as vaquinhas, os muus e as evocações infantis para dar lugar ao relato dolorido de um jovem à procura da alma perdida em algum canto da memória. Exatamente o contrário da sinceridade desmedida com que J. D. Salinger iniciava O apanhador no campo de centeio, que fala, de alguma forma, do mesmo tema tratado por Joyce: ''Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse e toda essa lenga-lenga tipo David Coperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso''. Salinger dava seu recado em exatas quatro linhas. Um cartão de visitas. Quem quisesse embarcar com ele - e não foram poucos, não mesmo - sabiam bem o que teriam pela frente.

Quem leu as primeiras linhas de Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino, teve sentimento oposto. Calvino é tão agarrado a seus começos de livro quanto um namorado que não se cansa de descrever um bom primeiro beijo: o momento exato em que uma língua tocou na outra, o medo, caramba, o medo que sempre dá, aquele fiapinho de saliva que insiste em colar uma boca na outra, um segundo beijo imediatamente depois e a certeza de que o mundo - aí incluído o segundo mandato de Bush e o ataque do Botafogo - tem jeito, sim. Calvino faz de seu livro um interminável primeiro beijo: ''Você vai começar a ler o novo romance de Ítalo Calvino...'', dizem as primeiras linhas, e prossegue numa sucessão de inícios de história que enfiam o leitor num carrossel em que a cobra morde o próprio rabo. Parece - e é - um exercício de estilo, mas é, mais que tudo, uma declaração das incertezas do escritor. A escolha das primeiras palavras é determinante para o prazer do autor. Mas não lhe dá a certeza do sucesso. Ou O código Da Vinci não venderia que nem banana.

''O renomado curador J.S percorreu cambaleante a arcada abobodada da grande galeria do museu''. É com essas palavras que Dan Brown dá início à sua história. Entre centenas de milhares de palavras disponíveis, o autor (ou seu tradutor, vá lá) acha por bem incluir ''abobodada'' na primeira frase de seu livro. É uma palavra medonha. Ainda assim, milhares de leitores insensíveis (eu, inclusive) atravessaram a arcada abobodada e seguiram em frente até o final do romance. Brown é um escritor de histórias, não um cultuador de palavras. Poucos conseguem conciliar uma coisa na outra. Como Vladimir Nabokov . O maior de todos. Um craque. Seu começo de Lolita contém as palavras mais perfeitas desde que alguém, não me perguntem quem, escreveu ''No princípio Deus criou o Céu e a Terra'', no versículo I do livro de Gênesis da Bíblia.

''Lolita, luz da minha vida. Labareda da minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo-li-ta.''

É o começo e é o fim, meu chapa.


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[30/JAN/2005]


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