As mulheres estavam sentadas à frente da televisão.
Senhora do destino. Comentavam a barbicha do Du Moscovis. Elogiavam, vejam só. Falavam mal da roupa justa da Letícia Spiller. Falavam bem da discrição da Carolina Dickemann. Aí Marília Gabriela entra em cena num vestido preto. Elegante. Uma das mulheres diz: ''Caraca, como é feia essa Marília Gabriela''. Outra completa: ''Medonha''. Depois as duas especulam sobre mandingas, deixando entreouvir palavras como Gianecchini, calcinhas, coador de café e bondonguê, que eu, sinceramente, não sei o que significa. Alguém parte em defesa de Marília: ''Eu a acho interessante''. Não soa bem. Pela ordem, se tivesse a chance de esganar cada uma daquelas mulheres - no que estaria certíssima - Marília Gabriela provavelmente começaria pela última. Eu apoiaria. Interessante é o Reynaldo Gianecchini, Marília é um tesão.
Nada é mais desinteressante para o mau cronista do que a mulher interessante. A mulher interessante exige texto explicativo. Parágrafos. É o avesso da concisão. A mulher interessante foi a invenção mais perversa do feminismo desde a queima dos sutiãs. Gosto de sutiãs. Principalmente pelo que sinalizam. Necessito de sinais, pistas. O sutiã foi a maneira criada pela mulher para testar nossas habilidades sexuais. Um cartão de visitas. Vale quase tanto quanto um bom primeiro beijo. Abrir o sutiã é trabalho que gera apreensão. Não quero sentir o mesmo pelas mulheres em geral, escondidas pelo manto de adjetivos diáfanos: interessante. Prefiro os óbvios.
Beleza óbvia, inteligência óbvia, peitinhos óbvios também. Seja como for. A mulher interessante não comporta adjetivos específicos, é como um navio naufragando sem bóias. Se a mulher tem olhos bonitos me agarro a eles. A mesma coisa com os pés. Ou com o umbigo. Ou com a tatuagem das costas, quase no ombro. Ou com a maneira como diz coisas simples tipo ''Como foi o seu dia hoje, meu amor?''. Ou no jeito que dorme. Uma mulher com começo meio e fim, um texto escrito em pedaços. Bons. A mulher interessante dispensa os bons pedaços, é o cadafalso da crônica. Não tem gancho. Coisa que Marília Gabriela tem de sobra.
Primeiro Marília me enganchou pela voz. Era de manhã, o TV Mulher emendava a música da Rita Lee com os vestidos de casamento do Clodovil e os conselhos sobre higiene íntima de Marta Suplicy. Mas eu queria a voz de Marília. E seus olhos azuis. E suas tiradas inteligentes. E seu cabelo muitas vezes esquisito, mas legal assim mesmo. E seu jeito de perguntar as coisas colocando a mão no queixo. O mesmo jeito que uma vez, quando flertava escandalosamente com um entrevistado (era o Gerald Thomas, o sacana), me fez morrer de ciúmes. Mas, como um voyeur sem vergonha, não me fez mudar de canal.
Agora Marília Gabriela é atriz. Posso recorrer aos mesmos adjetivos de sempre para comentar sua atuação. Falar dos olhos, da voz, da postura. Dizer que é bocuda. E ossuda. Lembrar dos pés, famosos numa seqüência em que pisoteava o Gianecchini. Vi belos joanetes ali. Mas é desnecessário.
Marília, vejam só, é uma atriz fantástica. Já havia sido assim mo palco, em Esperando Beckett, dirigida pelo mesmo Thomas do flerte odioso. Interessante é o escambau. Marília em cena dá a impressão de que pode fazer qualquer coisa na vida. E a vida fazer o que quiser com ela. Deve ser a isso que as meninas chamam de bondonguê.
Da outra vez fui contra. Quando o governo brasileiro quis expulsar Larry Rohter por ter feito aquela matéria chamando Lula de bêbado, eu fiquei do lado do jornalista. Corporativismo, provavelmente. Agora é diferente. Rohter volta a atacar numa materinha safada contra um autêntico monumento nacional.
Ilustrou suas garotas de Ipanema com fotos de gente com pelo menos 50 anos de praia. Chamou-as de gordas. Pior: de obesas, que são as gordas no vocabulário técnico. E a gente sabe que as garotas de Ipanema são mais ou menos como nossos filhos, nosso carro, nosso cabelo, nossa cidade e nosso time: só a gente pode falar mal. Portanto, dessa vez não tem perdão: fora Larry Rohter!