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As covinhas de Elis aparecem no sorriso e na dor

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As covinhas de Elis aparecem no sorriso e na dor


É provável que os deuses da música, como forma torpe de punição, me obriguem a passar o resto de meus dias trancado num quarto ouvindo o último CD do Daniel, por exemplo. Ou que me amarrem num trio elétrico durante uma micareta na Barra da Tijuca. É possível, também, que o Tárik de Souza mude de calçada toda vez que me vir passar. Tudo bem, eu agüento. A música, em seu sentido estrito, nunca foi a minha especialidade. Gosto das pessoas que fazem as músicas. E a verdade é que, após assistir aos 90 minutos do DVD Elis Regina - MPB especial, não consigo me lembrar de nenhum fato ali, nenhum arranjo, nenhuma música, nada que me chamasse mais a atenção do que as covinhas da Elis. Caramba. As covinhas de Elis Regina - uns buraquinhos cavados como búlicas e que se alojaram na minha cabeça como ímãs numa geladeira - guardam boa parte da alma da música brasileira.

As covinhas de Elis aparecem no sorriso e na dor. É estranho. São partes invioláveis e indisfarçáveis de seu caráter. Marcas. A cantora ri enquanto canta Vou deitar e rolar (aquela do ''qua qua ra qua quá quem riu'') e vocês precisam ver como isso é bonito: sua boca se abre ao ponto de exibir um dedo de gengiva, a cabeça balança de um lado pro outro, as mãos passam rápidas pelos cabelos cortados como o de um tenente da Marinha e as covinhas se abrem iluminando os dois lados do rosto. Como lanternas. Da mesma forma, quando comenta a tristeza de seu afastamento de Edu Lobo, as covinhas voltam a se pronunciar, dessa vez sutis, menos arredondadas. A câmera desvia de seu rosto para as mãos, onde Elis crava uma unha na outra, como se quisesse arrancar os esmaltes de uma lembrança dolorida.

A direção de Fernando Faro, o bamba que criou a série de especiais agora transformados em CD e DVD, privilegia o detalhe. As perguntas que faz não chegam ao espectador, só as respostas da artista. Sua voz. O negócio funciona mais ou menos como um pré-acústico da MTV ou como um clipe estiloso de uma obscura banda inglesa. Só que a convidada não parece obrigada a se sentar em banquinhos para parecer íntima do espectador. E o preto no branco da imagem e a fumaça do cigarro como cenário são bem mais que recursos vulgares.

Na época do programa Elis estava com 28 anos, mas parecia mais. Não pela aparência, mas pela maturidade. Ela fala e canta como uma veterana da era do rádio. Conta seus encontros com os craques da MPB - o momento em que relata seu primeiro encontro com Chico Buarque e de como perdeu a chance de lançá-lo antes da Nara Leão é particularmente legal - reclama de seus inimigos, abre o coração para lembrar do pai e da mãe. Fernando Faro, com uma câmera inquieta e elegante, traça um perfil da cantora a partir de incertezas, explora sua arte como resultado natural de uma vida cheia de trunfos. E algumas imperfeições.

Elis era uma estrela imperfeita. Talvez fumasse demais, talvez falasse demais, talvez brigasse demais, talvez cantasse bem demais. No DVD, cada uma dessas características é explorada ao extremo. Elis fuma enquanto canta, fala enquanto canta, chora enquanto canta. Chega a interromper Formosa (música de Vinicius de Moraes e Baden Powell em homenagem a Ciro Monteiro) para chorar. Outras vezes pára a música para rir de alguma coisa. Erra. Admite que errou. Não é um fato comum numa época em que as estrelas da música brasileira, em busca de uma perfeição inalcançável, se arriscavam tão pouco. Mesmo sua filha Maria Rita - que herdou a voz e até as covinhas da mãe - prefere o resguardo ao risco. Elis era mais arrastão do que cais, mais bêbado que equilibrista.

Elis canta 17 músicas, de Upa neguinho a Folhas secas, de Ladeira da preguiça a Canção do sal. Está acompanhada de uma banda pequena: César Camargo Mariano (com quem estava casada havia pouquíssimo tempo) no piano, um Luizão Maia novinho em folha no baixo e Paulinho Braga na bateria. Perfeitos, ainda que excluídos do encarte que acompanha o DVD. Eles escoram a cantora em interpretações contidas que nada lembram o estilo vendido ao público nos Festivais da Canção. Não há mãos para o alto, não há histrionismo, não há estrelismo além da conta. Há uma artista transbordando de luz, música boa, verdade e amor. Para além das covinhas.

Talvez eu fale das covinhas para disfarçar o que senti todas as vezes que vi Elis cantando Atrás da porta, de Chico Buarque e Francis Hime. Coisa de otário, eu sei. Mas, o negócio é f... Vira e mexe eu largo o que estou fazendo em casa e me coloco na frente da TV para ver/ouvir a música outra vez. É de arrancar lágrimas de parede.


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[28/NOV/2004]


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