E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Tostão
Não é só a altitude

Informe JB
Roupa suja se lava em casa

Cartas
Lula e o Rio

Horóscopo

Contos Mínimos
Jornada noturna

Gente
Ana nas alturas

Charge Online

Marcia Peltier
Che burocrata

Emir Sader
Quem tem medo da democracia?

Augusto Nunes
O malogro da Operação Velório no Egito

Informe Econômico
Droga Raia cresce no mercado carioca

Boechat
De olho

Estilo Iesa
De museu

Antonia
Brincadeira que já começa a dar frutos

1001 Polegadas
Tiros de espoleta

Domingo Listas
Dez souvenires horrendos do Rio

Passeio Completo
Salvador, meu amor, Bahia (3)

Renato Lemos
A menina de 12 anos: um sorriso lindo, um mistério

Maria Pia In
Para sempre pérolas

Paula Orsini
Mente sã em corpo são

 


A menina de 12 anos: um sorriso lindo, um mistério


Minha filha está fazendo 12 anos e não sei bem o que fazer com isso. Marina: 1,65m de altura, um sutiã recém-estreado, uma fórmula cabeluda de matemática para decorar, uma mochila decorada com bonequinhas sorridentes, uma fita do Bonfim no tornozelo, um piercing de estrelinha no alto da orelha, a pretensão de ter outro igual na sobrancelha, um avião da Barbie escondido no armário, uma conta de telefone de arrancar os cabelos, um interesse especial por Shakespeare e Bob Marley, o diário da Bridget Jones na cabeceira, um codinome esquisito na internet, uma certa atração por meninos de cabelos compridos, um sorriso de dentes branquinhos, possivelmente o sorriso mais lindo do mundo. Um mistério. Quando as meninas de 12 anos passaram pela minha vida não deixaram rastros. Nem marcas. Foram como um Atari, por exemplo. Um brinquedinho que não experimentei na época e ao qual jamais senti necessidade de retornar. Ou não tive oportunidade. Com Marina, as meninas de 12 anos me dão uma segunda chance.

Tenho descoberto, desde então, que desperdicei alguns dos bons anos da minha vida. Troquei as tais meninas por gente como Tuca, Puruca e Tiquinho, a linha de ataque do Botafogo nos idos de 1975. Uma troca infeliz. Talvez por isso minha filha torça para o Flamengo. É só uma maneira de provar sua independência e me colocar em contato com o seu mundo. Provavelmente a mais dolorosa para mim. Mas não a única. O cinema, por exemplo, tem me dado bons instrumentos para entendê-la melhor. Filmes como Meninas malvadas e Para sempre em minha vida ajudam um bocado. Um americano e um italiano. Um cruel e um lírico. Ambos fascinantes. O cinema é para mim uma pesquisa de campo das mais fáceis de realizar. Ao contrário da dança, por exemplo. E - ai, caramba, os safados dos deuses da dança, que não abençoaram meus pés, sabem como isso me dói - Marina quer dançar.

Nas três últimas semanas aprendi a conviver com o som alto tocando All star, música que abria Shrek 1 e que passou a fechar minhas noites de insônia. ''Hey now, you are an all star, get your game, go play.'' É o tema da coreografia que Marina e um grupo de mais seis meninas escolheram para apresentar na escola. Era um evento importante. Estavam em disputa qualidades fundamentais para uma menina de 12 anos: graça, beleza, simpatia e popularidade. As garotas, de um modo geral, não vivem sem essas coisas. Como eu não vivo sem o sorriso de minha filha. Por isso, cheguei a sugerir a compra de uma malha preta para mim, daquelas justinhas, a fim de acompanhá-la nos ensaios. Marina me olhou nos olhos e foi tão sincera quanto sucinta. Não falou mais que 15 palavras. Não me lembro de todas, mas ridículo e lesado certamente estavam entre elas. Compreendi.

Os pais devem compreender os filhos. Ou tentar, pelo menos. Procuro ser compreensível, portanto, quando encontro meu CD do Strokes debaixo de seu travesseiro, grudado num Babaloo de morango. Ou quando meus trabalhos no computador são interrompidos por um ''toc toc'' vindo das caixas de som, sinal de que alguém quer falar com ela pelo ICQ. Aprendi a compreendê-la há 12 anos, ainda na maternidade, no momento em que a enfermeira a colocou em meus braços e meus braços quase desabaram com seus três quilos e pouco. Um desespero. Quase tão grande quanto o que senti ao pensar tê-la perdido na praia e encontrá-la minutos depois, de mãos dadas com um salva-vidas. Criamos ali, enquanto lhe dava um beijo melado de Dragão Chinês e areia, uma relação de dependência difícil de se quebrar. Com ou sem malha preta justinha.

Marina saiu mais cedo para a apresentação. Linda com o cabelo preso atrás num rabo de cavalo alto. Ainda na porta, repetiu a coreografia para conferir se estava direito. ''Hey now...'' Estava ótima, claro que estava. Falei para ela uma série de palavras inúteis, mais ou menos a mesma coisa que Paulo Bonamigo, técnico do Botafogo, deve ter dito a seus jogadores antes do jogo contra o Flamengo: garra, confiança, tranqüilidade. Ela me deu um beijo no rosto e me disse até logo. ''Até logo, gatinha'', foi o que respondi.

Às nove e meia em ponto Marina começou sua apresentação no ginásio do colégio.

E eu me atrasei e não vi.


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[21/NOV/2004]


   Home > Colunas > Renato Lemos


Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | JB Barra | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem
Acelera | Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas