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O Waimea subiu ali em frente ao Méridien
[07/NOV/2004]
Enquanto eu assistia a Fábio Fabuloso, a frase chacoalhava na minha cabeça como se eu acabasse de tomar um caldo numa onda de 20 pés e estivesse agarrado aos corais. ''O Waimea subiu.'' Não que o filme tenha a ver com ondas grandes. Não tem. Não há sequer uma única imagem de Waimea Bay, o santuário delas. Fábio Gouveia, o fabuloso, é um estilista de ondas médias. O que fazia a frase chacoalhar na minha cabeça era simplesmente o fato de estar assistindo a um filme de surfe. Aconteceu a mesma coisa com Endless summer (os dois) e com Surf adventures. Acontece todas as vezes que eu assisto a documentários sobre o esporte na TV e vejo os grandes surfistas, suas vidas de paraíso, suas temporadas no Havaí e suas garotas pacientes esperando na areia. Nunca tive nada disso. Nem prancha, nem paraíso, nem Havaí, nem garotas pacientes. Mas tinha televisão.
''O Waimea subiu'' era a frase-chave para se entender Mar raivoso, um complexo filme de surfe que, pelo menos três vezes ao ano, embalava meus sonhos de Havaí nas sessões da tarde. Era um filme perfeito, safra 69. Nele, Barbara Eden (a Jeannie é um gênio) era uma nativa havaiana apaixonada por um surfista boa-pinta. A mãe da Jeannie é um gênio (ou era o pai, sei lá, me esqueci dessa parte) odiava aquele mundo de aventura, música e grandes ondas que seduzia sua filha. Estavam todos em Waimea Bay à espera que o mar subisse no primeiro dia do ano. Depois de fazer uma burrada que estragou o réveillon da garota, o surfista boa-pinta resolve se jogar do alto de um penhasco, num ritual de heroísmo para provocar a ira de Netuno e levantar o mar. Nesse momento, um sujeito qualquer entra em cena e grita: ''O Waimea subiu!''
Era mais ou menos o que a gente gritava quando botávamos os pés nas areias escaldantes de Copacabana, ali em frente ao Méridien, em dias de ressaca. ''O Um e Meio subiu.'' Um trocadilho safado juntando o mar havaiano ao ponto da praia que freqüentávamos: entre os postos 1 e 2. Não era um bom local para o surfe. O alargamento das pistas em Copacabana transformou - com exceção do baixio em frente ao Othon - ondas deslizantes em verdadeiros caixotes. Dane-se. Para nós, meninos de Botafogo e que pegávamos onda de peito e não de prancha, estava ótimo. O Um e Meio subia e a gente corria para a praia, enfiados naqueles shorts floridos que davam uma baita assadura na volta pra casa pelo Túnel Novo. E era até bom que não houvesse garotas para testemunhar nossa derrota.
As garotas provavelmente estavam no Arpoador, onde os surfistas cheiravam a parafina de coco, usavam camisa Hang Ten e dominavam a arte de manobrar suas pranchas K&K. E eram mais bonitos que nós. E mentiam que tinham ido ao Havaí. E odiavam os que usavam camiseta Val Surf falsificada. E tinham tênis Pampero original (eu até tinha um, que uma amiga da minha mãe trouxe da Argentina, mas era vermelho e meninos de Botafogo não usariam aquilo). E conheciam um cara chamado Bob Marley. E passavam o fim de semana em Saquarema. E faziam pouco de quem não morasse a pelo menos 500 metros do mar. E diziam que Mar raivoso era coisa de paraíba. E - aí sim era desesperador - ignoravam as garotas que nós amávamos tanto. Mesmo assim, algumas das maiores sensações da minha vida eu tive enquanto girava meu corpo para descer nas ondas grandes nos dias em que o Um e Meio subia.
''Camisa de bolinha No bolso um bronzeador Do lado uma esteira E uma prancha de isopor É o paraíba, é o paraíba''
A musiquinha, cantada em ritmo de rockabilly é o testemunho de como as coisas mudam no mundo da moda. Os versos poderiam muito bem ser usados como legenda num editorial de moda moderninho.
Fábio Fabuloso é um filme bacana. Apesar da ausência das grandes ondas e do excesso de jorgefurtadite no roteiro. Fábio é um cabra bom, é arretado, é da gota serena e sua linha de surfe é realmente belíssima. O tom dado pela narrativa de cordel realmente inova no gênero. Alguns depoimentos são legais. Algumas músicas também. Mas talvez nada ali seja tão bem sacado quanto o nome da produtora do filme: Woohoo Filmes. É isso aí: Uhu pra vocês também.
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