Um dia eu quis ser Paulo Francis. Como quis ser Dercy Gonçalves também. Na verdade, eu queria mesmo era arrumar um jeito de aparecer e os dois sabiam fazer aquilo muito bem. Provocavam. A diferença entre eles, fora os óculos fundo de garrafa, é que Francis era mais fácil de imitar. Pelo menos o Paulo Francis da TV. Ele era como Roberto Carlos, Lula, Chacrinha ou Emerson Fittipaldi: uma caricatura. Um dever de casa para iniciantes no ramo. Com o tempo, quando passei a conhecer também o Paulo Francis escritor, é que concluí que seria bem mais fácil ser Dercy Gonçalves. Ao contrário da comediante, cujo repertório de palavrões está mais ou menos catalogado, o jornalista era imprevisível. Ia do leviano ao sublime em apenas dois parágrafos. Não era coisa para amador. Paulo Francis - especialmente aquele que escrevia nos jornais - era inimitável.
Houve um tempo também que eu quis matar Paulo Francis. Nunca desejei o mesmo fim para Dercy Gonçalves, ainda que o episódio do topless no Sambódromo merecesse ao menos um puxão de orelhas. O estranho é que minha vontade de matar Francis surgiu junto com a minha vontade de imitá-lo. E não me venham com sociologia de botequim que rima amor com ódio. Eu tinha ódio, apenas. Acredito que muita gente sentisse a mesma coisa, mas poucos terão a coragem de assumir. Eu tenho. Francis era insuportável. Ele aparecia na televisão e, em três frases, destruía meus sonhos mais idealizados, punha abaixo mitos que eu levara anos para construir. Como os Rolling Stones, por exemplo. Ou os craques do meu time de botão, o PC Futebol Clube.
O PC F.C. era um time formado por Ho Chi Min no gol; Prestes na lateral direita, os limpa-trilhos Stalin e Mao-Tse-Tung na zaga e Trotsky na lateral-esquerda. O meio de campo contava com a criatividade e a lucidez de Marx, Lenin e Engels. E, no ataque, Garrincha (nos meus times Garrincha era sempre o ponta-direita até mesmo porque, no fundo, ele devia ser comunista também), Fidel e Che Guevara. O técnico era o João Saldanha, que fazia todo mundo atacar e defender na lógica máxima do socialismo aplicado ao futebol: uma mão lava a outra. Um timaço.
Os botões eram vermelhos, na maioria. De galalite. Fora o Che, que era uma vidrilha feita de tampa de relógio de bolso, mais ou menos como eu imaginava o líder argentino: frágil e transparente. Mas Francis não gostava dos comunistas, detestava futebol e estava se lixando para meu time de botões. Queria apenas falar frases de efeito na TV, pregar a vitória do capitalismo e depois ir comer um ravioli no Bravo Gianni da Rua 63, em Manhattan. Francis queria destruir meus sonhos. E eu queria matá-lo.
Escrevo isso agora, quando acabei de ler a biografia do jornalista escrita por Daniel Piza para a coleção Perfis do Rio, da Relume Dumará: Paulo Francis - Brasil na cabeça. É um livro curto, 120 páginas. E bom. Nele me reencontrei com o personagem que eu já conhecia desde que li seus dois romances meio biográficos, Cabeça de negro e Cabeça de papel: um sujeito complexo, dividido por um mundo de intelectuais e vagabundos, esquerda e direita, leviandades e fanfarrices, Rio e New York, idiotas e complacentes, bem-humorados e nem tanto. Nele, como já acontecera na época em que me viciei no Diários da corte - coluna publicada em alguns jornais brasileiros -, me reconciliei com um homem acorrentado a um personagem (lírico, escroto, brilhante, filho-da-puta, cínico, engraçado e humano) que ele mesmo criou. Um personagem que o perseguiria até a morte, em 1997.
Quando Paulo Francis morreu, eu já não queria matá-lo. Pelo contrário. Naquela época, o muro de Berlim já tinha ido abaixo, Frank Sinatra já gravara uma música com o roqueiro Bono Vox, Ava Gardner não estava mais por aqui, Collor assumira e fora deposto da Presidência do Brasil e meus botões já estavam guardados numa caixa de charutos (cubanos, claro) esperando o interesse dos meus filhos. Quando Francis morreu, FHC preparava o terreno do neoliberalismo que culminaria com o PT no poder defendendo a alta dos juros, a aliança com Sarney e o controle da imprensa. Um mundo de pernas para o ar, enfim. Nele, o reacionário Francis poderia muito bem posar de radical da extrema esquerda, por exemplo. E, com um pouco mais de treino, arrumava até uma vaga no meu time de botão.