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Renato Lemos
Olga era a utopia possível: minha mulher ideal

 


Olga era a utopia possível: minha mulher ideal


Em 1982 votei no Miro quando, no fundo no fundo, queria votar no Brizola. Culpa de Olga Benário Prestes. No mesmo ano, decorei de cabo a rabo um livro de poesias de Joseph Stalin, freqüentei festas onde só se servia cuba libre, perdi uma namorada para um sindicalista barbudo e tomei um porre de Praianinha no calçadão de Madureira. Tudo, também, por culpa única e exclusiva de Olga. Foi Olga - que, diziam, tinha olhos azul piscina - quem me mostrou o mundo possível do comunismo. Um mundo bom. Feito de justiça social, reuniões infinitas, palavras de ordem e garotas bonitas pra namorar. Aos 19 anos, ver uma garota passar, mesmo que ela estivesse apenas distribuindo panfletos iniciados com ''proletários uni-vos'', é tão importante quanto discutir as doenças do esquerdismo, por exemplo. E talvez tenha sido exatamente isso que Lenin quis dizer quando sugeriu ''um passo atrás para dar dois adiante''. O cara era bom na estratégia da paquera. O que fazer?

Olga era um sopro romântico numa época em que o máximo de romantismo admitido era ler Gramsci de vez em quando, perdoar Trotsky e cantar a Internacional em rodinhas de violão. Olga era a utopia possível: minha mulher ideal. Ainda que à noite eu continuasse a sonhar com a Monique Evans de topless em Ipanema.

Conheci Olga antes que Fernando Morais lançasse seu best-seller em 1985. Confesso que fiquei com um pouco de ciúmes. Olga era um segredo de poucos - pelo menos eu imaginava assim - descoberto em livros como Cavaleiro da Esperança, a trajetória de Luis Carlos Prestes escrita por Jorge Amado. Era um livro chato, panfletário, mas durante muito tempo achei que era melhor que Gabriela e Capitães da areia, por exemplo. Muito melhor que Tieta. Por isso relutei em ler o livro de Morais. Bobagem. Ali já estava o misto de biografia e jornalismo de investigação que virou marca registrada no mundo editorial brasileiro. Sem o sucesso de Olga, possivelmente não existiriam os ótimos livros de Ruy Castro, como O anjo pornográfico e A estrela solitária, baseados em Nelson Rodrigues e Garrincha, respectivamente. Sem Olga talvez não estivessem disponíves os diversos livros da coleção Perfis do Rio. Só por isso o livro de Morais já teria valido a pena. Mas com a história da judia alemã que se engaja num projeto maluco de revolução brasileira, o autor inaugurou um gênero: a biografia-painel. Um livro para ler, entender um pouco do Brasil e se envolver irreversivelmente com seus personagens. Mais ou menos o que ele fez, mais tarde, com Chatô. O texto de Morais é tão cativante quanto seus personagens. Por isso não quero saber quando ele lançar a biografia de Antônio Carlos Magalhães. Tô fora: não quero ser mais um a me apaixonar pelo ACM.

Camila Morgado não é a Olga Benário que eu imaginei. É melhor. O filme de Jayme Monjardim também não é exatamente como eu imaginei. É pior. É um filme triste apenas. Camila é boa. A atriz quase sempre consegue driblar um roteiro quadrado para dar verdade a um personagem que, na tela, parece um velho manequim da Sears: branca, careca, gelada, posada e com roupas que parecem feitas para a tia da gente. Mas Camila fala. E tem uma voz linda. Tão linda que, por vezes, a gente até esquece que ela está dizendo coisas mais ou menos como ''a revolução não pode mais esperar''. Ou ''os camaradas foram preparados para te dar proteção''.

O filme, no geral, soa tão falso quanto a Alemanha filmada na esquina da Antônio Carlos com a Araújo Porto Alegre. E é por isso que dá até pra deixar a história de lado e se concentrar em Camila. E na voz de Camila. Aí é batata. Quando ela olha pela janelinha do avião e fala ''o Brasil parece um paraíso'', o cinema nacional tem seu momento mais sensual desde que Sônia Braga deu uma ajeitadinha no vestido vermelho e perguntou ''este lugar está vago?'' em A dama do lotação.

Evandro Teixeira está em cartaz em um filme e uma exposição na cidade. Atrações imperdíveis. Qualquer pessoa que tenha passado pelo Jornal do Brasil nos últimos 40 anos terá pelo menos uma história de Evandro para contar. Eu tenho a minha. Talvez não seja a melhor. Nem a mais engraçada. Mas é a minha.

Um dia fui escalado para fazer o perfil de um empresário do show-business. Era uma pauta enjoada, daquelas de que todo mundo quer se livrar. Sobrou para mim. E para o Evandro. Não era o tipo de pauta para a categoria dele, mas já estava de tarde, as fotos seriam feitas na Barra e o Evandro estava louco de vontade de dar uma espiada nas netas, na Gávea. Foi. Quando chegamos lá, o entrevistado sugeriu a mesma pose de uma outra foto que enfeitava um porta-retratos em sua mesa: o sujeito fumava um charuto e olhava para o teto. Eu quis argumentar que era melhor pensarmos em uma foto original, quando Evandro colocou a mão no meu braço e disse:

- Deixa comigo, menino.

Deixei. E não me arrependi. No dia seguinte, a foto estampada no Caderno B mostrava o mesmo sujeito, na mesma pose que havia sugerido, só que com uma expressão caricata que beirava o ridículo. Na boca, o charuto parecia um..., parecia um sei lá. Parecia outra coisa. Depois, Evandro passou pela minha mesa, deu uma batidinha no meu ombro e falou:

- Gostou, menino?

As enciclopédias contam que Rembrandt fazia mais ou menos a mesma coisa com os nobres que retratava.


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[15/AGO/2004]


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