O francês é um povo tão bairrista em matéria de culinária que parece que todos lá já nascem sabendo e ai de quem tenta dizer o contrário. Em matéria de quitutes o mineiro é um pouco 'francês', ele entende de tudo. E olha que para criticar um quitute mineiro só pode ser um louco (paulista ou carioca) ou outro mineiro. É como aquela prima que todo mundo adora comentar as últimas façanhas nos aniversários de família, mas se alguém de fora ousa criticar, todos se unem mais que família da máfia siciliana em filme americano, e haja diplomacia para se sair da enrascada.
Como sou mineira e apreciadora desde menina dos quitutes da nossa região, que são os melhores (não resisti...), posso falar com autoridade e também com saudade.
Nada acompanha melhor uns quitutes mineiros do que um forro branco bordado, aqueles do Nordeste, xícaras de porcelana fina, um café bem fresquinho e um dedo de prosa. Faz parte do ritual comer demais e pedir a receita no final (aquela escrita no papel de cartas com a folha fininha que a gente dobra e guarda dentro do caderno de receitas). Na era do forro de mesa limpa-fácil, da louça marrom não quebrável e indescritível em sua feiúra, e de comer assistindo televisão, pouca gente sabe o prazer de uma mesa de lanche com quitutes mineiros. O lanche hoje é de pão de sal da padaria, queijo e presunto fatiados, e o mais grave, com margarina! Adeus ao bolo feito em casa (mesmo de caixa), à rosca de leite, ao biscoito amanteigado...
O pão de queijo é o mineiro que conquistou o país e sua popularização nivelou o gosto por baixo. Hoje em dia a gente se contenta em comer uma coisa que eu chamaria de 'pão-de-quê'? Falta queijo, falta sabor, falta aroma - só não falta coragem às pessoas que o vendem de chamar aquilo de pão de queijo.
Enfim, o gosto varia e existem dois tipos de pão de queijo sultados.
Alguns quitutes são difíceis de encontrar, como o saudoso biscoito cascudo. Sequinho, com sabor único e gostoso mesmo depois de alguns dias. Já outros acompanharam a evolução dos gostos como a broinha que hoje pode ser encontrada com sabor de ervas, de bacon e até de tomate seco. Os bolos são variados e alguns nunca perdem a primeiro lugar na preferência, como o bolo de fubá com queijo e erva-doce e o de limão com aquele açúcar derretido por cima. Não existe nada mais gostoso, você vai comendo a 'tampa' do bolo, cortando no ângulo só para aproveitar mais aquela crosta doce e azedinha ao mesmo tempo. E aquele bolo de cenoura com cobertura de chocolate, lembram como era gostoso?
Um outro antigo favorito é o pão sovado ou pão de São José. Para quem não sabe do que estou falando, o pão sovado é feito em gomos grandes, levemente adocicado e delicioso cortado em fatias e comido com bastante manteiga. A vantagem é que ele continua gostoso mesmo depois de alguns dias. Outros quitutes de emocionar os mineiros morando fora de casa são as rosquinhas com coco ralado por cima, bolo de mandioca, docinhos, biscoito de nata, sequilhos e broinha de fubá. A lista é interminável, basta ter cliente. O inglês com seu famoso chá das cinco fica vermelho de vergonha diante de uma mesa mineira. Sem bairrismo!